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Short story

A chuva das três

Everyone in Belém knows it rains at three in the afternoon; only one widow in the Cidade Velha knows why, until the day the rain does not come.

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Words to know (12)
  • o trovão · thunderclap
  • o sobrado · two-story colonial house
  • azulejado · tiled (with azulejos)
  • marajoara · from Marajó island, at the mouth of the Amazon
  • despachar · to send away, get rid of
  • o luto · mourning
  • o velório · wake (before a funeral)
  • safado · rascal, shameless (affectionate insult)
  • o tacacá · hot Amazonian soup of tucupi broth, shrimp and jambu
  • a mangueira · mango tree
  • a macaxeira · cassava (word used in the North and Northeast)
  • o rancor · resentment, grudge

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Em Belém do Pará, todo mundo sabe, chove às três da tarde. Os belenenses marcam encontros “depois da chuva” com a mesma naturalidade com que outros povos dizem “depois do almoço”, e há quem acerte o relógio pelo primeiro Os turistas acham pitoresco; os meteorologistas falam em convecção, umidade e floresta. Só Dona Iracema Bentes, viúva, oitenta e quatro anos, moradora de um da Cidade Velha, sabia a verdade, e não a contava a ninguém, porque ninguém tinha perguntado.

A verdade era que a chuva das três era dela. Começara em 1962, na tarde em que Raimundo, então seu noivo, embarcou num navio para Manaus prometendo voltar “quando a chuva parar”. Era frase de namorado, dessas que não se dizem para ser cumpridas, mas Iracema a levou a sério, com a teimosia que tinha herdado da avó Raimundo voltou três anos depois, casou com ela, viveu ao seu lado mais cinquenta e tantos anos, e a chuva, por algum descuido do universo, nunca recebeu o aviso de que podia parar. Continuou chegando, pontual, como um convidado que ninguém teve coragem de

Raimundo morreu num janeiro. Iracema passou dois anos de fechado, e a chuva caiu às três, todos os dias, com uma regularidade que já não era de namoro, mas de Até que numa terça-feira de setembro, ao arrumar a gaveta das cartas, ela encontrou uma que não conhecia, escrita pelo marido muito tempo antes, na qual ele confessava ter demorado aqueles três anos em Manaus não por causa do trabalho, mas de uma certa Lucinda. Iracema leu duas vezes, riu alto, disse “velho para o retrato na parede e, pela primeira vez em sessenta anos, perdoou-o por completo, inclusive pelo que não sabia.

Naquela tarde, não choveu. Às três e cinco, as pessoas começaram a olhar para o céu. Às três e meia, o Ver-o-Peso parou, com os peixeiros de braços cruzados e as vendedoras de sem saber se fechavam as barracas. Às quatro, a rádio interrompeu a programação. Às cinco, o prefeito convocou uma reunião de emergência, porque a cidade inteira tinha sido construída sobre aquela hora: as escolas soltavam os alunos depois dela, os bancos fechavam antes dela, os casais brigavam durante ela e faziam as pazes quando ela passava.

Na semana seguinte, sem chuva, Belém entrou em colapso. Os encontros não aconteciam, porque ninguém sabia quando era “depois da chuva”. As ofendidas, deixaram cair todas as mangas de uma vez. Um vereador propôs um projeto de lei declarando a chuva patrimônio imaterial do município, e outro, da oposição, acusou o prefeito de tê-la desviado. Foi um menino de dez anos, neto da vizinha, quem descobriu a conexão: a chuva tinha parado no mesmo dia em que Dona Iracema começara a cantar enquanto regava as plantas.

A comissão da prefeitura bateu à porta do na sexta-feira: o secretário de Meio Ambiente, uma climatologista da universidade e um padre, porque ninguém sabia muito bem de que natureza era o problema. Iracema os recebeu com café e bolo de e ouviu tudo com paciência. “Vocês querem que eu volte a ficar triste”, resumiu. O secretário, constrangido, disse que não, de jeito nenhum, que a prefeitura só pedia que ela levasse em consideração o interesse público.

Iracema pensou um pouco, mexendo o café. Depois disse que não ia ficar triste por ninguém, nem por uma cidade inteira, porque já tinha esperado demais na vida. Mas que podia, se fosse para ajudar, ficar com saudade. Saudade era diferente de tristeza, explicou à climatologista, que anotava tudo: era uma espera sem uma espera que já sabe que não vai ser atendida e espera mesmo assim. A climatologista anotou a definição e, mais tarde, a citou num artigo que ninguém levou a sério.

No dia seguinte, choveu de novo em Belém. Mas às quatro. Os belenenses estranharam por algumas semanas e depois se acostumaram, como se acostumam a tudo, e hoje juram que a chuva das quatro sempre existiu. Iracema não os corrige. Sabe que a hora a mais é o tempo que ela leva, todas as tardes, para perdoar Raimundo outra vez antes de começar a sentir falta dele.

Comprehension check

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1. What did Raimundo promise when he left for Manaus in 1962?

2. What made Iracema forgive her husband completely?

3. Who worked out why the rain had stopped?

4. What does Iracema agree to do for the city?