Short story
Ao pé da letra
After a fall at the office, an accountant in Recife stops understanding figurative language, with surprising effects on his company and his marriage.
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Words to know (11)
- engolir sapo · to put up with something unpleasant without complaining (lit. swallow a toad)
- o canteiro · flower bed
- perder o fio da meada · to lose the thread (meada: skein of yarn)
- o rombo · shortfall, hole in the accounts
- pagar o pato · to take the blame for something (lit. pay for the duck)
- encher linguiça · to pad out, fill with fluff (lit. stuff sausage)
- dar com a língua nos dentes · to blab, let a secret slip
- a indireta · hint, indirect remark
- o chiqueiro · pigsty
- o sítio · small farm, country place
- estar nas nuvens · to be on cloud nine (lit. be in the clouds)
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Desde que caiu da escada do escritório e bateu a cabeça num arquivo de aço, Severino Cavalcanti, contador, cinquenta e dois anos, morador de Casa Forte, no Recife, deixou de entender o sentido figurado. Os médicos fizeram todos os exames e não encontraram nada, exceto uma pequena lesão no lugar exato, disse o neurologista, “onde o cérebro guarda as metáforas”. O neurologista, que gostava de uma imagem, se arrependeu da frase quando viu Severino procurando o tal lugar na tomografia.
Para a família, o primeiro sinal veio no almoço de domingo. A sogra, Dona Socorro, contava pela décima vez a história da herança do tio Zezé, e a mulher de Severino, Luciana, sussurrou para ele: esse pelo amor de Deus.” Severino foi até o quintal, examinou o com uma atenção de cientista e voltou dez minutos depois, pálido, com uma pergunta técnica sobre o tamanho do Ninguém soube responder. Dona Socorro, pela primeira vez em trinta anos, perdeu o fio da e Severino se ofereceu para ajudá-la a procurar.
No trabalho, foi pior. O chefe, ao saber que o balanço trimestral tinha um exigiu que alguém pagasse o e Severino, homem de princípios, foi ao Mercado de São José, comprou um vivo e o depositou, com nota fiscal, na mesa da diretoria. O diretor financeiro mandou que ele pusesse as cartas na mesa, e ele pôs um baralho inteiro. Quando, exasperado, o diretor gritou que ele estava enchendo nos relatórios, Severino ficou ofendidíssimo, porque nunca tinha visto uma no escritório e considerava a acusação uma calúnia.
O curioso é que Severino começou a ter razão. Uma reunião em que alguém tinha dado com a nos dentes terminou quando ele, consternado, perguntou se a pessoa precisava de um dentista, e a pergunta provocou tamanho constrangimento que o segredo, enfim, foi guardado. Um colega que vivia de olho na vaga de outro, ao ouvir Severino perguntar em voz alta qual dos olhos, desistiu da intriga. Aos poucos, a empresa foi ficando mais honesta, não por virtude, mas porque ninguém mais tinha coragem de dizer uma coisa querendo dizer outra na frente dele.
Em casa, o efeito foi o contrário. Luciana, que estava casada com ele havia vinte e cinco anos e se comunicava sobretudo por descobriu que um marido literal é um marido surdo para tudo o que importa. Quando dizia que estava morrendo de cansaço, ele chamava a ambulância. Quando dizia que a casa estava um ele procurava os porcos. E quando, numa noite de discussão, ela disse que estava com o coração na mão, ele passou meia hora olhando para as mãos dela, apavorado, até que ela começou a rir e chorar ao mesmo tempo, coisa que ele, felizmente, entendeu sem precisar de tradução.
Foi nessa mesma noite que Luciana perdeu a paciência de vez e, de pé na cozinha, disse a frase que mudou a vida dos dois: “Severino, vá plantar batatas!” Ele não discutiu. Na manhã seguinte, pediu demissão, vendeu o carro e comprou um em Gravatá, a uns oitenta quilômetros do Recife, onde plantou batatas com a meticulosidade de quem passou trinta anos conferindo balanços. As batatas, que não entendiam de metáforas, cresceram de maneira espantosa. Os vizinhos, que a princípio o tomaram por doido, passaram a lhe pedir conselhos, e ele os dava com uma franqueza tão completa que ninguém conseguia se ofender: dizia que a terra estava cansada quando a terra estava cansada, e que o adubo era ruim quando o adubo era ruim.
Hoje Severino é o maior produtor de batata orgânica do Agreste, dá entrevistas para programas rurais e responde a todas as perguntas exatamente como foram feitas, o que os jornalistas acham revigorante. Luciana foi morar com ele no Diz às amigas que o casamento nunca esteve tão bom, porque ela aprendeu a dizer o que quer. Quando quer um beijo, pede um beijo. Quando quer ficar sozinha, diz que quer ficar sozinha. Só uma vez, por descuido, disse que estava nas e Severino, sem perder a calma, foi buscar a escada.
Comprehension check
0/4 answered
1. Where, according to the neurologist, was Severino's injury?
2. What did Severino do when his boss demanded that someone "pagasse o pato"?
3. Why did the company become more honest?
4. How has Luciana adapted to her husband's condition?