Deep End
← Mastery stories

Short story

Personagem secundária

A waitress with two lines in a novel set in Curitiba tells us what life is like on the edges of someone else's story.

Tap a dotted word for its meaning.

Words to know (12)
  • o avental · apron
  • o coadjuvante · supporting character, supporting actor
  • o cachecol · scarf
  • a fala · line (of dialogue)
  • modéstia à parte · if I may say so myself
  • o rascunho · draft
  • latir · to bark
  • a fresta · chink, narrow gap
  • o pires · saucer
  • tropeçar · to trip, stumble
  • vendável · marketable, salable
  • debruçado · slumped forward, leaning over

Select any text to highlight it, or a word to translate it or save it to your flashcards.

Meu nome é Neusa e eu apareço pela primeira vez na página quarenta e sete, servindo um café. O autor me descreve em meia linha: “uma garçonete de meia-idade, de manchado”. O aliás, não estava manchado; foi ele que derrubou café no teclado na hora de me escrever, e eu fiquei com a mancha. Isso diz muito sobre a relação que nós temos. Trabalho no Café Ópera, na Rua XV, em Curitiba, num romance que se chama, provisoriamente, “O inverno de Augusto”, e Augusto não sou eu.

Augusto é o protagonista. Professor de filosofia, cinquenta anos, separado, de cinza, o tipo de homem que pede um café pequeno e fica três horas olhando a chuva como se a chuva lhe devesse dinheiro. O autor o adora. Dá a ele parágrafos inteiros de pensamento, memórias de infância em Ponta Grossa, uma ex-mulher cruel, uma filha distante, uma dúvida metafísica por capítulo. A mim, deu duas “Mais alguma coisa?” e “Vai chover a tarde toda.” A segunda, à parte, é a melhor frase do livro.

Vocês talvez não saibam como é a vida de uma personagem secundária. Nós existimos só enquanto alguém está olhando. Quando Augusto vai embora do café, eu não vou para casa, porque não tenho casa; o autor nunca escreveu uma. Fico atrás do balcão, num lugar sem luz e sem tempo, esperando a próxima cena. Às vezes ouço os outros personagens conversando no escuro: o porteiro do prédio de Augusto, a vizinha que toca piano, um cachorro que aparece no capítulo nove e nunca mais. Conversamos sobre o que todo trabalhador conversa: o patrão. O porteiro reclama que nunca recebeu sobrenome. A vizinha desconfia que o piano dela desafina de propósito, só para que ela tenha o que fazer. Eu digo a eles que paciência, que também é gente, e eles me olham como quem não acredita.

Foi o cachorro quem me deu a ideia. Ele contou que, no primeiro tinha no momento errado, e o autor resolveu deixar, porque achou que dava “textura”. Ou seja: o autor não controla tudo. Há E eu, que já tinha servido duzentos e trinta e um cafés a Augusto ao longo de quatro versões do manuscrito, conhecia todas as do Café Ópera.

No capítulo onze, Augusto recebe uma carta da filha, que mora em Manaus, e decide não abri-la. É a grande cena do livro: ele guarda a carta no bolso do casaco, sem ler, e passa os oito capítulos seguintes se arrependendo, numa elegia ao silêncio entre pais e filhos que o autor considera, segundo as anotações na margem, “o coração do romance”. Eu li as anotações. Eu leio tudo o que fica em cima da mesa; sou garçonete.

Na quinta versão, quando Augusto deixou a carta ao lado do para procurar os óculos, eu Não estava previsto. O café caiu em cima do envelope, que se abriu, e a primeira linha da carta ficou à vista, molhada, impossível de não ler: “Pai, eu vou ter um filho e queria que você fosse o primeiro a saber.” Augusto leu. Eu disse “Desculpe, vou trazer outro café”, que era a minha terceira e a primeira que eu mesma escrevi.

O autor passou duas semanas tentando consertar. Apagou o reescreveu a cena, voltou atrás. Mas Augusto já tinha lido, e personagem que leu não desaprende. Cada versão nova ficava pior que a anterior, até que o autor, numa madrugada, desistiu da elegia e deixou Augusto pegar um avião para Manaus. O romance ficou mais curto, mais feliz e, segundo o editor, muito mais Na última página, Augusto segura o neto no colo. Eu não apareço.

Mas este conto é meu. O autor não sabe dele; eu o escrevi nas margens do capítulo três, com o lápis que ele esquece em cima da mesa, enquanto ele dormia sobre o teclado. Se você chegou até aqui, eu existo há uns quatro minutos, o que é mais do que eu existi em todo o romance. Não se apresse. Mais alguma coisa? Vai chover a tarde toda.

Comprehension check

0/4 answered

1. What lines did the author originally give Neusa?

2. What happens to Neusa when Augusto leaves the café?

3. What did the dog's story teach her?

4. What did her "accident" change in the novel?