Short story
O último manuscrito
After a famous novelist dies in Salvador, his editor of thirty-seven years finds his final novel, and it is about her.
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Words to know (12)
- a Quarta-feira de Cinzas · Ash Wednesday, the day after Carnival
- a governanta · housekeeper
- datilografado · typewritten
- a emenda · correction, amendment
- de antemão · in advance
- a armadilha · trap
- o roteiro · script
- o desfecho · ending, outcome
- a gráfica · print shop
- póstumo · posthumous
- as provas · proofs (of a book)
- a teimosia · stubbornness
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Abelardo Sampaio morreu aos noventa e um anos, numa Quarta-feira de o que os jornais de Salvador consideraram de um simbolismo excessivo e ele, se estivesse vivo, teria considerado de um mau gosto encantador. Autor de catorze romances, três deles traduzidos para mais línguas do que ele sabia pronunciar, passou os últimos vinte anos anunciando um livro que ninguém viu. Teresa Lacerda, sua editora desde 1987, foi chamada pela à casa do Rio Vermelho dois dias depois do enterro. O manuscrito estava numa caixa de charutos vazia, em cima do piano.
Eram trezentas e doze páginas numa Olivetti que ele se recusava a aposentar, com a caneta verde. O título era um nome: “Teresa”. Ela leu a primeira frase em pé, a segunda sentada, e só se levantou de novo quando a veio acender a luz. O romance contava a vida de uma editora baiana, filha de um farmacêutico de Cachoeira, que chegou a Salvador aos dezenove anos com uma mala e uma bolsa de estudos, que se casou com um homem bom e o deixou por motivos que nunca explicou, e que, numa noite de 1992, num bar do Pelourinho, recusou um pedido de que nunca falou a ninguém. Tudo verdade. Tudo, inclusive o que ela não tinha contado a ninguém.
Teresa passou a semana relendo o manuscrito com a sensação de quem encontra o próprio diário escrito com outra letra. Abelardo sabia coisas que ela só tinha pensado. Sabia o nome do cachorro da infância, a cor do vestido da noite do Pelourinho, a frase exata que ela disse ao recusá-lo, e que ela mesma acreditava ter esquecido. Às vezes errava, e os erros eram piores que os acertos, porque eram exatamente os erros que ela gostaria que fossem verdade: um telefonema que ela não deu, uma viagem que não fez, uma versão de si mesma que teria tido coragem.
O último capítulo tinha uma página só. Nele, Teresa, a personagem, terminava de ler o manuscrito de um velho escritor morto, ia até o quintal, acendia um fogo numa lata de biscoito e queimava aquela página, porque era a única que dizia a verdade sobre os dois. O capítulo não dizia qual era a verdade. Dizia apenas que ela a queimaria, que fazia bem, e que ele a perdoava de
Teresa conhecia Abelardo havia trinta e sete anos e sabia reconhecer uma Se queimasse a página, obedeceria ao dele, e o romance terminaria exatamente como ele quis, com ela como personagem até o fim. Se não queimasse, o livro ficaria sem porque o era o gesto de queimá-lo. Passou duas noites acordada, com a lata de biscoito no colo e uma caixa de fósforos que não abriu. Na terceira manhã, telefonou para a
Decidiu publicar tudo, inclusive o capítulo final, sem mudar uma vírgula. Era o seu modo de ganhar a discussão: a personagem queimava a página; a mulher real a imprimia em vinte mil exemplares. A imprensa recebeu o livro como uma obra-prima a crítica falou em metaficção e em amor tardio, e ninguém, felizmente, identificou a editora no título, porque Teresa é um nome comum e os críticos são distraídos.
Foi só nas finais, revisando a última página, que ela notou o que lhe tinha escapado. Embaixo do capítulo de uma página só, em letra miúda, a caneta verde, havia uma nota que ela tomara por uma mancha: “Ou não queimará, por e publicará tudo, o que dá no mesmo. Eu sempre soube que ela faria o contrário do que eu escrevesse. Por isso escrevi.” Teresa riu sozinha na sala da editora, um riso curto, de derrota, mas também de reconhecimento, como quem perde uma partida de xadrez para um adversário que a merecia.
Restava uma última jogada. Antes de mandar o arquivo para a Teresa acrescentou uma linha ao fim do livro, a única frase de todo o volume que Abelardo não escreveu nem poderia ter previsto. Não a revelou a ninguém, e o leitor que procurar por ela na edição de bolso não vai encontrá-la, porque na reimpressão ela mandou tirar. Quem leu a primeira edição diz que é uma frase simples, de quatro palavras, e que muda tudo. Os críticos discutem até hoje se é uma resposta, uma confissão ou um adeus. Teresa, quando lhe perguntam, diz que é só uma correção de revisora.
Comprehension check
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1. What was the title of Abelardo's last manuscript?
2. Why were Abelardo's mistakes worse for Teresa than the things he got right?
3. What happens in the one-page final chapter?
4. What did Teresa discover in the final proofs?