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Short story

A letra do escrivão

In Salvador in 1691, an old notary recalls the will he took down at a dying sugar planter's bedside, while an enslaved woman watched his pen.

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Words to know (12)
  • o escrivão · notary, court scribe
  • lavrar · to draw up (a legal document)
  • o moribundo · dying man
  • aparar · to trim (a quill pen)
  • o tinteiro · inkwell
  • forro · freed (from slavery)
  • findos os quais · after which (once they are over)
  • o ventre · womb
  • a cláusula · clause
  • contestar · to contest, challenge in court
  • a carta de alforria · letter of manumission (freedom papers)
  • o quitute · homemade delicacy, snack

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Escrevo isto em 1720, na Cidade da Bahia, com a mão que já não me obedece como antes e que, no entanto, ainda reconhece o peso de uma pena. Fui do público e judicial desta cidade por quarenta e dois anos. escrituras de venda, de dote, de quitação; registrei casamentos de interesse e inventários de defuntos que ninguém chorou. Se somassem as palavras que deixei nos livros, dariam para forrar a Sé de alto a baixo. De todas elas, porém, só uma me pertence de fato, e é dela que quero dar conta antes que Deus me peça a minha.

Corria o ano de 1691. A cidade vivia ainda das conversas sobre os versos do doutor Gregório de Matos, aquele a quem chamavam Boca do Inferno, que não poupava governador, frade nem senhor de engenho, e cujas sátiras passavam de mão em mão nas tavernas da Ladeira da Misericórdia. Eu as lia às escondidas e ria, como todos, sem nunca imaginar que um pudesse ter, ele também, uma pequena boca de inferno escondida na ponta da pena.

Numa tarde de março, mandaram-me chamar ao solar do capitão Domingos Arruda Pacheco, senhor de dois engenhos no Recôncavo e de uma casa de três andares nas Portas do Carmo. O homem morria. Tinha a cor da cera das velas que o cercavam, e o padre que o confessara já se retirara para a varanda, com ar de quem cumprira o seu ofício e não esperava milagre. Abri o sobre uma mesinha de jacarandá, a pena e esperei que o ditasse as suas últimas vontades.

Ditou-as com uma lucidez que me assombrou: tantas missas pela sua alma no convento de São Francisco, tanto em dinheiro às sobrinhas, as terras ao genro, a prata à viúva. Ao pé da cama, imóvel como uma imagem de igreja, estava uma mulher de uns quarenta anos, a quem chamavam Joana Angola. Havia trinta anos que cuidava daquele homem: amamentara-lhe os filhos, curara-lhe as febres, ajeitava-lhe agora o travesseiro todas as noites. Não me olhava. Olhava a pena.

“Deixo a minha escrava Joana”, disse o capitão, e a mulher não se mexeu, “com a condição de servir à minha viúva por dez anos, os quais será livre como se de livre nascera.” Fez uma pausa, respirou com dificuldade e acrescentou, já de olhos fechados: “Escreva, senhor E leia-me depois, que eu já não enxergo letra.”

Molhei a pena. Escrevi “Deixo a minha escrava Joana, com a condição de servir à minha viúva por dez”, e aí a mão parou. Não sei explicar o que se passou naquele instante; talvez fosse cansaço, talvez o diabo, talvez o doutor Gregório soprando-me ao ouvido. Pensei na viúva, que eu conhecia de nome e de fama, e em dez anos ao serviço dela. Pensei que Joana teria então cinquenta, se chegasse a tê-los. E escrevi, com a mesma letra firme e redonda de sempre, a palavra “dias”.

Depois li em voz alta o testamento inteiro, devagar, como manda o ofício. Quando cheguei à li “dez anos”, sem tremer. O capitão aprovou com a cabeça. Pediram-lhe que assinasse; não podia, e fez uma cruz que eu reconheci, e as testemunhas, dois vizinhos que mal sabiam desenhar o próprio nome, assinaram onde lhes apontei. Joana continuava olhando a pena. Juro que ela não sabia ler. Juro também que, quando fechei o livro, ela me olhou pela primeira vez.

O capitão morreu naquela noite. A viúva o testamento, como era de esperar, mas não a de Joana, que ninguém se deu ao trabalho de conferir: brigou pela parte do genro, e o processo arrastou-se por seis anos na Relação. Enquanto os doutores discutiam terras e prata, uma mulher saiu do solar das Portas do Carmo com uma carta de em boa forma, e eu a vi descer a ladeira sem pressa, como quem já não deve satisfação ao relógio de ninguém.

Nunca mais a encontrei. Disseram-me que vendia no Terreiro de Jesus; outros, que fora para o Recôncavo e lá se casara. Escrevi milhares de palavras depois daquela, todas exatas, todas honestas, todas inúteis. Peço perdão a Deus pela mentira lida em voz alta. Pela palavra escrita, não peço; essa, se for pecado, é o único que levo com gosto.

Comprehension check

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1. When is the narrator writing his account?

2. What did the notary actually write in the will?

3. Why did nobody discover the change?

4. How does the narrator judge what he did?