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Short story

Cartas à mana Amélia

In 1868, a young woman newly arrived at the imperial Court in Rio writes to her sister about balls, a pompous suitor and a newspaper column everyone is quoting.

Tap a dotted word for its meaning.

Words to know (12)
  • a mana · sis (affectionate for sister)
  • o enjoo · seasickness, nausea
  • a modista · dressmaker
  • o pretendente · suitor
  • o folhetim · newspaper serial or column
  • zombar de · to mock
  • despachar · to process official business (a bureaucrat's work)
  • o carimbo · rubber stamp
  • o sinete · seal (for sealing wax)
  • o rapé · snuff
  • a casaca · tailcoat
  • lacônico · terse, using few words

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Rio de Janeiro, 4 de abril de 1868. Minha querida Amélia, chegamos enfim à Corte, depois de dois dias de vapor e de que tia Carlota atribuiu ao mar e eu à conversa dela. A casa do tio Bento, na Rua dos Inválidos, é grande, escura e cheira a cânfora; o tio é surdo de um ouvido e finge sê-lo do outro sempre que a tia fala. Já fui à Rua do Ouvidor. Não sei como te descrever, é uma rua estreita onde cabe o Império inteiro, com as francesas, os chapéus que custam o preço de um escravo (e esta comparação, que aqui ninguém estranha, a mim me dá vergonha de escrever), os rapazes que discutem a guerra do Paraguai como quem discute ópera, e a ópera como quem discute a guerra.

19 de abril. Tia Carlota já me arranjou um Chama-se doutor Albuquerque, é viúvo, oficial de gabinete no Ministério do Império e tem a solenidade de um tinteiro. Fala de tudo com a mesma certeza, e sobretudo de um que sai aos domingos no jornal, assinado por “Um Velho Observador”. Dizes que nunca o leste? Lê, lê, que vale a pena. O Velho Observador dos bailes do Cassino, das senhoras que desmaiam por encomenda e dos deputados que dormem na Câmara. O doutor Albuquerque acha-o genial. “Vê-se logo que é homem vivido”, disse-me ontem. “Nenhuma mulher seria capaz de tanta malícia.”

3 de maio. Fomos ao baile da baronesa de Santa Luzia. Dancei duas quadrilhas com o doutor Albuquerque, que dança como isto é, devagar e com Entre uma figura e outra, recitou-me de cor um parágrafo inteiro do último aquele sobre os maridos que escolhem esposa como quem escolhe cavalo, pelos dentes e pelo dote. Ria-se muito. Eu também ri, Amélia, e com mais razão do que ele, porque fui eu que escrevi aquele parágrafo, à luz de vela, no quarto dos fundos, enquanto o tio Bento roncava do outro lado da parede.

Sim, Não rasgues esta carta antes de chegar ao fim. Desde fevereiro mando os ao jornal pelo moleque da vizinha, num envelope lacrado com o do tio, e o redator, um senhor chamado Lacerda, paga-me oito mil-réis por semana sem nunca me ter visto. Guardo o dinheiro dentro do livro de orações, que é o único lugar desta casa onde tia Carlota nunca põe os olhos. Não contes a mamãe. Não contes a ninguém. E, se puderes, compra o jornal em Campos e lê o em voz alta na sala, para veres a cara do padre Anselmo.

17 de maio. Aconteceram duas coisas, e não sei qual é a pior. A primeira: o doutor Albuquerque pediu minha mão ao tio Bento, que, por ser surdo do lado certo, entendeu que lhe pediam uma pitada de e lha ofereceu, de modo que o pedido terá de ser repetido. A segunda: o senhor Lacerda escreveu ao Velho Observador dizendo que o Imperador em pessoa lera o último e pedira para conhecer o autor. Dom Pedro, O homem que lê Victor Hugo no original e manda medir as estrelas quer apertar a mão de um velho que não existe.

2 de junho. Resolvi as duas coisas de uma vez, e conto-te como. Ao doutor Albuquerque respondi que não. Disse-lhe, com toda a doçura, que não poderia casar com um homem que admira tanto um escritor e não o reconhece quando o tem à frente, dançando quadrilha. Ele não entendeu, felizmente, e saiu convencido de que eu lera romances demais. Quanto ao Imperador, mandei o tio Bento.

O tio foi a São Cristóvão de e chapéu alto, levando decorado um discurso de três frases que eu lhe ensinei durante uma semana. Sua Majestade elogiou-lhe o estilo e fez-lhe várias perguntas; o tio, que só ouvia metade, respondeu a todas com a única frase que lhe restara do discurso: “Escrevo o que vejo, Majestade.” Respondeu-a até quando lhe ofereceram café. Dom Pedro achou graça, disse que nunca conhecera um satírico tão e deu-lhe de presente um volume de poesias com dedicatória. O livro está agora na minha mesa. Diz: “Ao Velho Observador, que vê o que nós não vemos.”

Fico, portanto, solteira, desconhecida e homenageada por um Imperador. Não sei se é muito ou pouco para uma moça de Campos. Sei que domingo sai novo, sobre um viúvo que dança como Lê e queima esta carta. Tua irmã que muito te quer, Leonor.

Comprehension check

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1. What does Doctor Albuquerque say about the author of the column?

2. Why does Leonor laugh "com mais razão" at the ball?

3. What happened when Albuquerque asked Uncle Bento for Leonor's hand?

4. How did the meeting with the Emperor go?