Short story
Caixa alta
On May 13, 1888, a Black typesetter in Rio composes the headline that ends slavery, letter by backwards letter, then carries the page to the coffee farm where his mother still works.
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Words to know (11)
- a caixa alta · upper case (capital letters)
- o compositor · typesetter
- catar · to pick out one by one
- o tipo · piece of metal type
- o componedor · composing stick
- alforriar · to free from slavery
- o tropeiro · mule driver
- revogar · to revoke
- o leilão · auction
- a enxada · hoe
- o graveto · twig
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Na oficina do jornal O Arauto, na Rua do Ouvidor, Tibúrcio Gomes era conhecido como o mais rápido da Corte. Compunha de pé, diante dos cavaletes, os de chumbo nas caixas com a mão direita e alinhando-os no com a esquerda, de trás para a frente e de cabeça para baixo, como quem lê num espelho. Dizia-se que era capaz de compor uma coluna inteira sem olhar o original, só de ouvido, enquanto o revisor ditava. Ele não desmentia. Achava graça em ser o homem que lia o mundo ao contrário e o devolvia direito.
Tibúrcio nascera escravo numa fazenda de café em Vassouras e fora vendido aos nove anos a um tipógrafo francês da Corte, que precisava de dedos pequenos. O francês, homem de ideias republicanas e hábitos econômicos, ensinou-lhe o ofício, aos vinte e cinco em troca de dez anos de salário que nunca chegou a pagar e morreu de febre amarela, deixando-lhe uma de e uma dívida. A mãe de Tibúrcio, Felicidade, ficara em Vassouras. Ele mandava-lhe recados pelos e, de dois em dois anos, ia vê-la no terreiro, com licença do senhor, como quem visita um túmulo onde a morta ainda trabalha.
No domingo, 13 de maio de 1888, a oficina estava cheia desde a madrugada. Corria pela cidade que a Princesa descera de Petrópolis para assinar a lei, e o redator-chefe, de colarinho desabotoado, andava de um lado para outro com o texto aprovado pelo Senado na mão. Às três da tarde, chegou um rapaz correndo do Paço, sem chapéu, gritando que estava assinada. Na rua, começaram os foguetes. O redator entregou o papel a Tibúrcio: alta, a página inteira. E depressa, que o povo quer ler.”
O texto da lei era curto. Tinha dois artigos, e o segundo só servia para as disposições em contrário. Tibúrcio começou pelo primeiro. o É, o D, o E, o C, o L, o A, e foi alinhando no ao contrário, como sempre, a frase que aprendera a ler de trás para diante: “É declarada extinta desde a data desta lei a escravidão no Brasil.” Quando chegou à palavra “extinta”, a mão parou. Os outros que trabalhavam nas colunas menores, perceberam o silêncio e olharam. Tibúrcio estava com o T entre os dedos e não conseguia pô-lo no lugar.
“Que foi, Gomes?”, perguntou o chefe da oficina. Tibúrcio respondeu que não era nada, que era o chumbo, que o estava gasto. Escolheu outro T, novo, brilhante, e o colocou. Mais tarde diria que não fora capaz de compor aquela palavra com uma letra usada, que o T de “extinta” tinha de ser um T que nunca tivesse servido para mais nada, nem para anúncio de nem para aviso de escravo fugido, que eram, nos jornais da Corte, o pão de cada dia da tipografia.
A edição saiu às seis. Tibúrcio dobrou uma folha ainda úmida, guardou-a dentro da camisa e foi a pé até a estação da Estrada de Ferro Dom Pedro II. Dormiu no trem e chegou a Vassouras de manhã, com a tinta da página impressa no peito, ao contrário, como no chumbo. Na fazenda, ninguém sabia de nada. O senhor ainda não recebera notícias, ou fingia não ter recebido, e os escravos estavam no cafezal desde as cinco.
Tibúrcio subiu no carro de bois parado no terreiro e leu a lei em voz alta. Leu duas vezes, porque da primeira ninguém acreditou. Da segunda, um velho largou a no chão e ficou olhando para ela como para uma coisa estranha. Felicidade não gritou nem chorou. Aproximou-se do filho, pegou a folha, olhou longamente para aquelas letras que não sabia ler e perguntou só uma coisa: “E agora, meu filho, a gente vai para onde?” Tibúrcio procurou a resposta no segundo artigo e não a encontrou.
Felicidade viveu mais dezenove anos, num quarto alugado na Gamboa, lavando roupa para fora. Nunca se queixou da lei, mas também nunca a elogiou. Pediu ao filho, isso sim, que lhe ensinasse a ler. Ele quis começar pelo abecedário, como mandam os livros; ela recusou. Quis aprender uma só palavra, a do T novo, e aprendeu-a em três semanas, desenhando-a no chão com um Depois disso, sempre que passava por um jornal pregado na parede de uma venda, procurava aquela palavra com o dedo, e quando a achava sorria, como quem encontra um parente.
Comprehension check
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1. What was special about the way Tibúrcio worked?
2. Why did Tibúrcio swap the letter T in "extinta"?
3. What did Felicidade ask when she heard the law?
4. How did Felicidade choose to learn to read?