Short story
O guarda-livros de Manaus
In 1910, at the height of the rubber boom, a bookkeeper in Manaus receives a dictated letter from a rubber tapper on the Purus who wants to know how much he still owes.
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Words to know (11)
- o guarda-livros · bookkeeper
- a casa aviadora · trading house that supplied goods on credit
- o aviamento · debt-based supply system of the rubber trade
- a engrenagem · machinery, set of gears
- o seringueiro · rubber tapper
- o seringalista · owner of a rubber estate
- o barracão · estate store (where tappers bought on credit)
- defumar · to smoke (cure with smoke)
- o agiota · loan shark
- o saldo devedor · outstanding balance owed
- uns quebrados · and some change, a bit more
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Em 1910 Manaus tinha luz elétrica nas ruas quando muitas capitais ainda acendiam lampiões, bondes que deslizavam entre palacetes e um teatro de cúpula verde e amarela cujas telhas tinham vindo da Europa. Amadeu Siqueira, da casa Freitas & Irmão, não ia ao teatro. Sabia, porém, quanto custava cada camarote, porque os camarotes dos sócios também passavam pelos seus livros, entre uma remessa de borracha para Liverpool e um caixote de champanhe para a esposa do senhor Freitas.
A casa Freitas & Irmão vivia do palavra elegante para uma simples. A casa adiantava mercadorias ao do Purus; o as revendia, no aos os pagavam com borracha, que voltava rio abaixo, em bolas para a casa. O preço da farinha, do sal, da cachaça e da espingarda quem fixava era o o preço da borracha também. Amadeu levara dois anos para perceber que, nos livros, as contas dos não fechavam nunca. Levara mais um para perceber que não fechavam de propósito.
Numa manhã de chuva, chegou com a correspondência do vapor uma carta diferente. Vinha num papel de embrulho, dobrada em oito, endereçada ao Senhor Dono dos Livros, Manaus. Fora ditada, via-se, a alguém que escrevia com dificuldade, e assinada com uma cruz e um nome por extenso: Raimundo Nonato da Silva, natural de Quixadá, Ceará, na colocação Boa Esperança, rio Purus. Dizia que estava na mata havia onze anos, que mandara para baixo, com o suor dele, mais borracha do que pesava um boi, que a mulher e os filhos o esperavam no Ceará desde a seca, e que ele só queria saber uma coisa: quanto ainda devia para poder voltar.
Amadeu procurou a conta. Estava no livro sete, folha cento e doze, numa letra que não era a dele. Onze anos de farinha, sal, querosene, chumbo, quinino e uma rede, cobrados a preços que fariam corar um Do outro lado, onze anos de borracha pesada no numa balança que, segundo se dizia rio abaixo, roubava um terço de cada bola. O de Raimundo Nonato era de um conto e oitocentos mil-réis. Era o preço de uma passagem de primeira classe para a Europa. Era também, coincidência que Amadeu anotou a lápis na margem, o preço de uma temporada inteira num camarote de primeira ordem do Teatro Amazonas.
Naquela noite ele refez a conta em casa, à luz de um lampião, com os preços do mercado de Manaus e o peso corrigido. Refez três vezes, porque não acreditava. Raimundo Nonato não devia nada. A casa é que lhe devia quatrocentos mil-réis e uns Amadeu escreveu uma resposta curta, com a sua melhor letra, dizendo exatamente isso, e assinou com o próprio nome, coisa que um não fazia nunca.
Na manhã seguinte, o senhor Freitas chamou-o ao escritório. Tinha a carta de Amadeu aberta sobre a mesa: o rapaz do correio da casa, como era seu dever, entregara-lhe toda a correspondência que subia o rio. O patrão não se zangou. Riu, de um riso cansado, quase paternal. “Seu Amadeu, o senhor é um homem honesto, e isso é muito bonito. Mas pense comigo. Essa carta sobe no nosso vapor, chega ao nosso e é aberta pelo nosso gerente. O não sabe ler. Quem vai ler para ele?” Guardou a carta numa gaveta e mandou-o de volta aos livros.
Dois anos depois, a borracha das plantações inglesas da Ásia, plantada em fileiras com sementes levadas da própria Amazônia, derrubou o preço do látex no mundo inteiro. Em poucos meses, Manaus apagou-se como um lampião sem querosene. A casa Freitas & Irmão faliu em 1913. Coube a Amadeu, último empregado a sair, esvaziar o escritório. Na gaveta do patrão, entre letras protestadas e convites para óperas que já não aconteceriam, encontrou a sua carta, ainda aberta, ainda verdadeira.
Não se sabe se Amadeu Siqueira chegou ao rio Purus. Sabe-se que, em abril de 1913, um homem com esse nome comprou uma passagem de terceira classe num vapor que subia rumo a Lábrea, e que levava na bagagem pouca roupa, um livro de contas e quatrocentos mil-réis em notas, que, pelas contas dele, não lhe pertenciam.
Comprehension check
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1. What did Amadeu gradually realize about the tappers' accounts?
2. What did Raimundo Nonato want to know?
3. What did Amadeu's honest calculation show?
4. Why was Mr. Freitas not worried by Amadeu's letter?