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Short story

O caminho que não existe

In the hills of Minas Gerais in the 1750s, the woman who lays a quilombo's false trails finds a wounded slave-catcher at the bottom of one of her pits.

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Words to know (12)
  • a lavra · mine working (gold diggings)
  • o feitor · overseer (of enslaved workers)
  • o caco · shard, broken piece
  • a cuia · gourd bowl
  • o fojo · pit trap
  • a estaca · sharpened stake
  • o capitão do mato · slave-catcher (hunter of runaways)
  • a gameleira · wild fig tree
  • o emplastro · poultice
  • vendar · to blindfold
  • a casa de pau a pique · wattle-and-daub hut
  • a légua · league (about 6 km)

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No quilombo da Pedra Furada, nas serras que descem para o Rio das Mortes, havia gente que plantava milho, gente que forjava ferro, gente que rezava em três línguas e gente que vigiava. Benedita fazia outra coisa: inventava caminhos. Havia vinte anos que fugira de uma de ouro em Vila Rica, com as costas abertas pelo chicote do e desde então dedicara a vida a uma única arte, a de fazer a mata mentir.

Os seus caminhos eram obras de paciência. Ela quebrava galhos na altura em que um homem os quebraria, pisava o barro de propósito, deixava cinzas de fogueira falsa e um ou outro de para dar ao viajante a certeza de estar no rumo. Os caminhos verdadeiros, ao contrário, não pareciam caminhos: subiam por leitos de córrego, atravessavam lajes lisas, sumiam. E, no fim de cada trilha falsa, à espera de quem a seguisse com confiança, havia um um buraco fundo coberto de ramos e folhas, com no fundo.

Numa madrugada de setembro, um dos meninos que vigiavam a encosta veio correndo dizer que o do Jatobá tinha engolido gente. Benedita foi ver. No fundo do buraco, com uma atravessada na coxa e o mosquete partido, estava um homem branco de barba ruiva, que ela reconheceu antes mesmo de lhe ver a cara: era Inácio Rabelo, do mato, o mesmo que, anos antes, levara de volta a Vila Rica, amarrados pelo pescoço, onze fugitivos de um quilombo do Campo Grande. Tinha fama de nunca errar o caminho.

O conselho reuniu-se debaixo da Os homens queriam matá-lo ali mesmo, e não lhes faltava razão. Pai Quirino, o mais velho, lembrou que do mato não anda sozinho, que atrás de um viriam dez, e que um morto no era um recado escrito em letra que o governador sabia ler. Se o soltassem, ele voltaria com a tropa. Se o matassem, a tropa viria procurá-lo. Ficaram em silêncio até que Benedita falou, sem levantar a voz: “Ele não vai voltar com a tropa. Vai voltar com uma história.”

Durante três semanas ela tratou a ferida do com de folha e mel; deu-lhe angu, água e silêncio. Inácio sabia que estava vivo por um fio e não fazia perguntas. Quando ele conseguiu andar, ela os olhos com um pano de algodão e disse: “Agora o senhor vai embora. Mas vai pelo meu caminho.”

Andaram sete dias. Benedita conduziu-o pela mão, às vezes por trilhas que ela mesma abrira, às vezes em círculos largos em torno do mesmo morro. Fazia-o atravessar o mesmo córrego quatro vezes, por pontos diferentes, e dava-lhe a cada vez um nome novo: o Ribeirão das Almas, o Córrego do Medo, o Rio Sem Fundo. À noite, os rapazes do quilombo batiam tambores longe, depois perto, depois longe outra vez, e Inácio, de olhos ouvia uma nação inteira onde havia quarenta casas de pau a No sétimo dia ela tirou-lhe a venda numa estrada real a meia da vila de São João e foi-se sem dizer adeus.

O relatório que o Inácio Rabelo entregou ao ouvidor da comarca está, ainda hoje, num arquivo de Minas. Fala de um quilombo a sete dias de marcha, protegido por rios sem fundo, guardado por centenas de negros armados, cercado por uma serra onde nenhuma bússola funciona. Recomenda, por prudência, que não se mande tropa antes das chuvas. Depois das chuvas, recomenda o mesmo. A expedição que partiu dois anos depois, guiada pelo próprio relatório, perdeu-se nos brejos do Rio das Mortes e voltou com febre.

Há quem leia aquele documento como prova da covardia de um envelhecido. Há quem o leia como prova da imaginação dos homens da época. Pouca gente repara na frase final, escrita com letra mais firme que o resto: “O caminho existe, mas não é para ser achado.” Benedita nunca soube dessa frase, porque não sabia ler. Mas sabia, como ninguém, que um homem pode ser levado pela mão até a verdade que lhe convém, e que às vezes ele vai porque quer.

Comprehension check

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1. What was Benedita's special role in the quilombo?

2. Why did Pai Quirino argue against simply killing the captain?

3. How did Benedita make the quilombo seem bigger and farther away?

4. What does the final sentence of the captain's report suggest?