Short story
A letra torta
In Salvador in 1798, a writing master's young apprentice learns why, when seditious papers appear on church doors, a beautiful handwriting can be a death sentence.
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Words to know (11)
- o calígrafo · calligrapher, writing master
- pardo · of mixed race (colonial term)
- o ourives · goldsmith
- o requerimento · formal petition
- o soldo · soldier's pay
- o jugo · yoke
- a candeia · oil lamp
- sedicioso · seditious
- o letrado · educated, literate person
- os autos · court records
- torto · crooked
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Quem vê a minha letra, inclinada para trás, com os os abertos e os tt sem corte, pensa que sou homem de pouca escola. Engana-se. Aprendi a escrever com o melhor da Cidade da Bahia, mestre Félix Antunes, filho de um e de uma lavadeira, que dava aulas de escrita aos filhos dos comerciantes da Rua Direita e copiava para quem não sabia assinar o nome. Fui seu aprendiz dos dez aos quinze anos. Copiava dele as letras como quem copia o andar do pai. Aos quinze, diziam que não se distinguia a minha letra da dele.
Na madrugada de 12 de agosto de 1798, apareceram pregados nas portas das igrejas, na Praça do Palácio e nas esquinas do Terreiro, uns papéis escritos à mão que a cidade inteira leu antes do café. Falavam ao povo bahiense, chamavam-no a uma república em que não haveria diferença entre brancos, pretos e prometiam abrir os portos, aumentar o dos soldados e acabar com o de Lisboa. Eram assinados por um tal “Partido da Liberdade”. Eu não os li naquela manhã. Li-os à noite, à luz de numa cópia que mestre Félix trouxe dobrada na manga. E reconheci a letra, porque era a minha.
Não era a minha, claro. Mas era tão parecida que eu podia tê-la escrito dormindo. O mestre me olhou por cima dos óculos, sem dizer nada, e eu entendi duas coisas ao mesmo tempo: que ele era um dos que tinham escrito os papéis, e que eu, sem nunca ter conspirado, estava tão comprometido quanto ele. Pela primeira vez, percebi que uma coisa bonita podia ser perigosa. Eu tinha orgulho daquela letra. Ela agora podia me enforcar.
O governador mandou fazer o que nunca se fizera na Bahia. Reuniu os escrivães da Relação e ordenou-lhes que comparassem os papéis com a letra de todos os homens que sabiam escrever na cidade. Recolheram cartas, recibos, livros de contas. Era um modo novo de caçar gente: pela mão. Durante semanas, a cidade viveu o medo curioso de quem só tem a perder por ser instruído. Os analfabetos andavam tranquilos pelas ruas. Os queimavam papéis.
Numa noite de setembro, mestre Félix me chamou ao quarto dos fundos. Tinha uma pena nova e um tinteiro sobre a mesa. Mandou-me sentar e disse, com a calma de quem dá a última lição: “A partir de hoje, tu escreves com a outra mão.” Achei que era loucura. Ele não deixou que eu protestasse. Pegou a minha mão esquerda, enfiou nela a pena, segurou-a com a dele, e começamos, os dois, a desenhar o alfabeto como quem aprende de novo a andar. As letras saíam gordas, feias. “Melhor”, dizia ele. “Mais feio. Mais Assim ninguém te reconhece.”
Trabalhamos a noite inteira. Ao amanhecer, ele pegou todos os meus cadernos de cópia, cinco anos de letras perfeitas, e os jogou no fogo do fogão, folha por folha, sem pressa. Eu chorei. Ele não. Depois me deu um abraço curto, me mandou para a casa de uma tia em Cachoeira, do outro lado da baía, e me proibiu de voltar antes do Natal. Não voltei antes do Natal. Não voltei, aliás, por muitos anos.
Em novembro de 1799, enforcaram na Praça da Piedade quatro homens: dois soldados e dois alfaiates, todos todos pobres. Os corpos foram esquartejados e as partes expostas pela cidade. Um deles, dizem os foi identificado justamente pela letra. Mestre Félix não estava entre eles. Foi preso, interrogado e solto por falta de prova, porque a sua letra, comparada à dos papéis, era quase igual, mas não igual: faltava-lhe a firmeza de um menino de quinze anos. Morreu em 1812, cego, numa casa da Baixa dos Sapateiros.
Escrevo estas linhas com a mão esquerda, em 1850, aos sessenta e sete anos. Tive uma vida inteira para voltar à direita e nunca voltei. A letra de mestre Félix, a bonita, a perfeita, morreu comigo naquela noite de setembro, e às vezes sinto falta dela como se sente falta de um parente. Mas, quando me perguntam por que escrevo tão mal, respondo sempre a mesma coisa, que ninguém entende: que é a letra mais bonita que já tive, porque foi a que me deixou vivo.
Comprehension check
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1. Why did the narrator recognize the handwriting on the papers?
2. What new method did the governor use to find the authors?
3. What did Mestre Félix make the boy do that night?
4. Why was Mestre Félix released?