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Short story

Relatório sobre o baile

In Rio in 1976, a police informer is sent to spy on the soul dances of the Black Rio movement, and his reports slowly change.

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Words to know (11)
  • lotado · posted, assigned (to a department)
  • o delegado · police chief
  • o punho · fist
  • a boca larga · flared (pants)
  • o discotecário · DJ
  • apurar · to find out, ascertain
  • ter jeito · to have a knack, be good at something
  • alisar · to straighten (hair)
  • a batida · police raid
  • revistar · to search, frisk
  • a viatura · police car

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O agente Nivaldo Cerqueira, na Divisão de Informações do Departamento de Ordem Política e Social, recebeu a missão numa segunda-feira de março de 1976, junto com uma pasta fina e um conselho do “Deixa o cabelo crescer.” A missão era simples. Havia nos subúrbios do Rio uma movimentação suspeita de jovens negros que se reuniam aos sábados em clubes de Madureira, Irajá e Vila Isabel para dançar música americana, usar roupas extravagantes e, segundo uma fonte confiável, cumprimentar-se com o fechado. Brasília queria saber se aquilo era só baile ou se era outra coisa.

Relatório n.º 1, 20 de março. “Compareci ao baile do Clube Astória, em Madureira, das 22h às 4h. Público estimado em três mil pessoas, maioria de cor, faixa etária de 16 a 30 anos. Trajes: calças de larga, sapatos de plataforma, camisas coloridas, cabelos em formato esférico de grandes proporções. O conhecido como Mister Jorjão, toca discos importados de artistas norte-americanos e projeta em uma tela imagens de líderes negros estrangeiros. Observei o gesto do fechado em diversas ocasiões. Recomendo vigilância.”

Relatório n.º 4, 10 de abril. “O baile repete-se com a mesma estrutura. Identifiquei que o gesto do fechado ocorre principalmente durante uma música específica, intitulada ‘Say it loud’, e é acompanhado de um grito coletivo cujo conteúdo, em inglês, não pude por desconhecer o idioma. Os frequentadores dançam em fileiras sincronizadas, executando passos coreografados que parecem ensaiados durante a semana. Suspeito de organização prévia. Tentei participar das fileiras para observar de perto, mas não consegui acompanhar a sequência. Solicito autorização para frequentar aulas.”

Relatório n.º 7, 8 de maio. “Autorização concedida. Frequentei, na quarta-feira, aula de dança na garagem de um sobrado em Irajá, ministrada por um jovem conhecido como Sapinho. Os passos têm nomes próprios, a maioria de difícil transcrição. Confirmo que a sequência é ensaiada, mas não encontrei evidência de doutrinação. O único material escrito na garagem era uma lista de discos. No sábado, consegui acompanhar a fileira inteira durante a música principal. O público aplaudiu. Uma moça de nome Sueli comentou que eu tinha Anexo a lista de discos.”

O leu o relatório número sete duas vezes. Chamou Nivaldo à sala e perguntou se ele estava brincando. Nivaldo disse que não. Explicou que o movimento existia, sim, que os rapazes falavam de orgulho, de cabelo, de pele, que diziam que preto é bonito e que ninguém mais ia o cabelo para arranjar emprego no centro. O perguntou se isso não era subversão. Nivaldo pensou um pouco e respondeu, com toda a sinceridade, que não sabia. Que tinha crescido em Nilópolis ouvindo a mãe dizer para ele não sair de casa sem pentear aquele cabelo ruim. Que agora não sabia mais se o cabelo era ruim.

Relatório n.º 12, 26 de junho. “O baile prossegue sem incidentes. A polícia militar fez uma na saída, às 4h, os frequentadores encostados ao muro, sem nada encontrar. Fui também, por não portar documento funcional, que deixei em casa por recomendação de segurança. O soldado que me chamou-me de macaco. Não reagi, conforme o treinamento. Registro que o baile em si não apresentou qualquer ameaça à ordem. A ameaça, se houve, saiu da

O relatório número doze nunca chegou a Brasília. O guardou-o numa gaveta, transferiu Nivaldo para um setor de arquivo e mandou outro agente, mais velho e mais careca, que voltou do primeiro baile dizendo que aquilo era coisa de comunista e que a música era alta demais. O movimento continuou. Cresceu tanto que, naquele mesmo ano, os jornais do Rio deram-lhe um nome em inglês, e logo as gravadoras descobriram que havia dinheiro nele.

Nivaldo pediu demissão em 1979. Abriu uma loja de discos em Madureira, perto do viaduto, e casou com Sueli. Muitos anos depois, quando os arquivos da polícia política foram abertos ao público, um pesquisador encontrou a pasta dele e foi procurá-lo para uma entrevista. Nivaldo leu os próprios relatórios em silêncio, devolveu a pasta e disse que só tinha uma correção a fazer: no relatório número quatro, onde estava escrito que não pudera o conteúdo do grito em inglês. “Hoje eu sei o que eles gritavam”, disse. “Eu também gritava.”

Comprehension check

0/4 answered

1. What was Nivaldo's mission?

2. What does Nivaldo request in report number 4?

3. According to report number 12, where did the threat come from?

4. What correction does Nivaldo make years later?