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Short story

O livro paralelo

When an old registrar in Diamantina finally retires, his young successor finds a secret ledger that records everything the law refuses to register.

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Words to know (11)
  • a palmatória · ferule, a wooden paddle once used to punish pupils
  • a Corregedoria · the court office that supervises registries and notaries
  • o acervo · collection, archive
  • a traça · moth, bookworm
  • a escrivaninha · writing desk
  • dar fé · to certify, attest (a notary's formula: I attest)
  • lavrar · to draw up (an official record or deed)
  • o emolumento · official fee paid to a registry
  • o guichê · service window, counter
  • a averbação · annotation added to an official record
  • o expediente · working hours

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Durante quarenta e sete anos, Anísio Torquato de Almeida foi o oficial do Registro Civil de Diamantina, e durante quarenta e sete anos ninguém o viu errar uma vírgula. Registrou nascimentos de meninos que viriam a ser prefeitos, casamentos que duraram meio século e outros que não chegaram ao Carnaval seguinte, óbitos de gente que morreu de velhice, de cachaça e de desgosto, nessa ordem de frequência. Tinha a letra miúda e inclinada dos que aprenderam caligrafia sob a ameaça da e uma convicção que repetia aos estagiários como quem reza: “O que não está no livro não aconteceu.”

Quando enfim se aposentou, aos oitenta e um anos, por imposição da e não por vontade própria, o cartório passou às mãos de Débora Nunes, trinta e quatro anos, aprovada em concurso, natural de Belo Horizonte e convicta de que a digitalização era a forma moderna da caridade. Débora encontrou o em ordem impecável: livros encadernados em couro, índices remissivos, nem sinal de Encontrou também, numa gaveta trancada da de jacarandá, um volume sem número, sem termo de abertura, sem qualquer valor jurídico.

Era um livro de registros como os outros, com as mesmas colunas e a mesma letra miúda. Mas o que ali se registrava não constava de lei alguma. “Aos doze de março de 1971, compareceu a este cartório, sem o saber, o sentimento de Geraldo Peixoto por Maria das Dores Ferreira, que lhe lançou um olhar na fila do Não houve declarantes. Dou Mais adiante: “Aos três de agosto de 1983, reconciliaram-se os irmãos Teodoro e Jacinto Brandão, que não se falavam havia onze anos por causa de uma vaca. A vaca já tinha morrido. Dou E assim por centenas de páginas: primeiros amores, perdões tardios, arrependimentos que nunca chegaram a ser ditos, todos com a mesma sobriedade com que se uma escritura de compra e venda.

Débora passou a noite lendo. De manhã, foi à casa do velho, na Rua da Glória, com o livro debaixo do braço e a firme intenção de lhe pedir explicações, embora não soubesse exatamente de quê. Seu Anísio a recebeu de pijama e gravata, porque havia hábitos que nem a aposentadoria desfazia. Olhou o livro sem surpresa, como se olha um parente que aparece para o almoço sem avisar.

“O senhor inventava isso?”, ela perguntou. “Inventar é palavra de romancista”, respondeu ele, ofendido. “Eu registrava. A senhora acha que um cartório serve para quê? Para provar que as coisas aconteceram. Mas a lei só reconhece o que tem papel, testemunha e pago. O resto, que é quase tudo, ia se perdendo. Alguém precisava dar “E como o senhor sabia dessas coisas, se ninguém vinha declarar?” Ele sorriu pela primeira vez. “Minha filha, eu fiquei quarenta e sete anos atrás de um balcão. As pessoas não declaram, mas confessam. Confessam no jeito de assinar, na demora para devolver a caneta, no nome que escolhem para o filho.”

Débora quis argumentar que aquilo era, no mínimo, uma invasão de privacidade, talvez um crime previsto em alguma lei que ela ainda haveria de encontrar. Mas o velho já tinha aberto o livro numa página marcada com uma fita e o virava para ela com a cerimônia de quem apresenta um documento a ser assinado. A data era de quatro meses antes de ela nascer. “Aos vinte de janeiro de 1992, compareceram a este cartório Luís Nunes e Sandra Aparecida Gomes, para casamento que não se porque a noiva desistiu no último instante e saiu correndo pela Rua Direita. O noivo ficou. Ela voltou meia hora depois, de sandálias na mão. Casaram-se em Belo Horizonte, no mês seguinte, por vergonha de voltar aqui. Dou com alegria.”

Débora conhecia a história, ou uma versão dela: os pais sempre disseram que tinham se conhecido em Diamantina, numa festa, e que se casaram na capital “porque era mais prático”. Nunca falaram de sandálias. Ela ficou um tempo calada, com o livro no colo, sentindo que alguma coisa na sua própria certidão de nascimento acabava de receber uma “Por que o senhor parou de escrever?”, perguntou enfim. “Não parei. Me aposentaram. O livro é do cartório, não é meu. Agora é da senhora.”

Débora digitalizou todos os livros do como havia prometido à Todos menos um, que voltou para a gaveta trancada da de jacarandá. Às vezes, depois do quando a última pessoa sai com a certidão na mão e um jeito de andar que diz mais do que o documento, ela abre o livro, pega a caneta-tinteiro que o velho lhe deixou de herança e escreve, com uma letra que a cada mês fica um pouco mais miúda e inclinada. Termina sempre do mesmo modo. Dou

Comprehension check

0/4 answered

1. What rule did Anísio repeat to the interns?

2. What did the unnumbered ledger record?

3. How did Anísio say he knew these things?

4. What does Débora do with the ledger in the end?