Short story
O forno de Dona Brites
In Recife in 1654, as the Dutch surrender and the Jewish community prepares to leave, a girl goes to the Catholic baker who has secretly baked their Passover bread for twenty years.
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Words to know (11)
- o baú · trunk, chest
- a rendição · surrender
- o Santo Ofício · the Holy Office (the Inquisition)
- a ama · nanny, nursemaid
- ázimo · unleavened
- raspar · to scrape
- o tacho · large pan
- a moringa · clay water jug
- o fermento · yeast, leavening
- a pá · baker's peel (shovel)
- salpicado · speckled, spattered
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Em abril de 1654, a Rua dos Judeus, no Recife, cheirava a aberto. Fazia três meses que os holandeses tinham entregado a cidade aos portugueses, e o acordo de dava aos judeus um prazo para venderem o que pudessem e partirem antes que o Santo que viajava sempre no navio seguinte ao dos soldados, desembarcasse. Ester Aboab tinha dezessete anos e passara a vida inteira naquela rua estreita entre o rio e o mar. Sabia português, holandês, hebraico das orações e algumas palavras de tupi que aprendera com a Não sabia o que era partir.
A Páscoa caía naquele mês, a última que fariam no Recife. Faltava o pão. Durante vinte anos, desde que a comunidade se instalara na cidade, o pão da Páscoa fora assado num único forno, o de Dona Brites Correia, padeira católica da rua de trás, que uma vez por ano o forno, lavava-o com água e cinza, acendia-o com lenha nova e deixava as mulheres da sinagoga entrarem pela porta dos fundos para fazer as massas. Ninguém se lembrava de como aquele acordo começara. Fazia parte da cidade, como as pontes de Maurício de Nassau.
Naquele ano, porém, as coisas eram outras. Havia soldados portugueses nas esquinas e padres novos na igreja. Ninguém queria ser visto com judeu. A mãe de Ester disse que fariam a Páscoa sem pão, ou com o pão que desse, num de cobre sobre o fogão. Ester não aceitou. Na véspera da festa, ao anoitecer, embrulhou a farinha num pano e foi sozinha bater na porta dos fundos de Dona Brites.
A padeira abriu, olhou para os lados da rua e mandou-a entrar depressa. O forno já estava aceso. lavado, com lenha nova. Ester ficou parada no meio da cozinha, com o embrulho de farinha nos braços, sem saber o que dizer. Dona Brites pegou o embrulho, despejou a farinha na mesa, juntou a água que Ester trouxera numa e começou a amassar, com mãos rápidas, sem exatamente como faziam as mulheres da sinagoga. “Em dezoito minutos tem de estar no forno”, disse ela. “Não é assim?”
Ester perguntou-lhe por que fazia aquilo, com os soldados na rua e os padres na igreja. Dona Brites não respondeu logo. Continuou amassando, depois furou a massa com um garfo, em fileiras, e meteu-a no forno com a Só então se sentou num banquinho, enxugou as mãos no avental e contou. A avó dela, em Viana, lá em Portugal, acendia duas velas toda sexta-feira ao pôr do sol, dentro de um armário, sem dizer a ninguém por quê. Varria a casa da porta para dentro. Não comia carne de porco e dizia que era por causa do estômago. Morrera sem explicar nada. Dona Brites só entendera, anos depois, no Recife, vendo as mulheres da Rua dos Judeus prepararem o sábado.
“Eu não sei rezar o que vocês rezam”, disse ela, “e não quero saber, que tenho medo. Mas sei limpar um forno.” O pão saiu do forno chato, duro, de queimado. Dona Brites embrulhou-o no mesmo pano e devolveu-o a Ester, que o levou para casa debaixo do xale, pela rua escura, como quem leva um recém-nascido.
Naquela noite, a família Aboab fez a sua última Páscoa no Recife com o pão de Dona Brites. Dias depois, embarcaram num navio que deveria levá-los para Amsterdã, mas que piratas espanhóis desviaram, e depois um capitão francês, e que, depois de muitos meses e muitas desgraças, deixou vinte e três judeus num pequeno porto holandês do norte da América, chamado Nova Amsterdã, que um dia mudaria de nome.
Ester viveu ali até os setenta anos. Teve filhos, netos, uma loja de tecidos. Contam os descendentes que, todos os anos, na véspera da Páscoa, ela o forno da casa com as próprias mãos, lavava-o com água e cinza e acendia-o com lenha nova, e que, quando as filhas perguntavam por que tanto cuidado, respondia em português, língua que ninguém mais na família entendia, uma frase que eles foram repetindo de geração em geração sem saber o sentido: “Sei limpar um forno.”
Comprehension check
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1. Why did the Jewish families have to leave Recife?
2. What had Dona Brites done every year for twenty years?
3. What did Dona Brites reveal about her grandmother?
4. Where did Ester finally settle?