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Short story

O gateado

By the fire in a ranch shed in Rio Grande do Sul, an old gaúcho tells his grandson about the horse that refused to cross a river during the civil war of 1893.

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Words to know (12)
  • o gateado · dun horse (yellowish with dark mane)
  • achegar-se · to come closer (gaúcho)
  • o guri · boy, kid (gaúcho)
  • a cuia · gourd for drinking chimarrão
  • pelear · to fight (gaúcho)
  • a peleia · fight, battle (gaúcho)
  • a china · girl, sweetheart (gaúcho)
  • degolar · to cut the throat of
  • o pingo · good horse (gaúcho)
  • o passo · ford (river crossing)
  • o rebenque · riding whip
  • o estancieiro · ranch owner

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Te e larga esse rádio, que hoje o vô vai contar uma coisa que nunca contou nem pra tua avó. Bota mais um galho no fogo e me passa a Tu sabe que eu em noventa e três, na revolução. Isso todo mundo sabe. O que ninguém sabe é por que eu voltei vivo, e não foi por valentia, que valentia eu tinha a mesma dos outros, e os outros ficaram lá, na beira do Ibirapuitã. Quem me salvou foi um cavalo. Um de crina preta que nem era meu.

Naquele tempo o Rio Grande estava dividido ao meio que nem melancia. De um lado os maragatos, de lenço vermelho, que eram contra o governo do Júlio de Castilhos. Do outro os pica-paus, de lenço branco, que eram a favor. Eu tinha dezenove anos e lenço vermelho, porque meu pai tinha lenço vermelho, e o pai dele também, e porque, bah, naquela idade a gente escolhe o lado como escolhe a no baile: pela cor, sem pensar muito. Era uma guerra feia, Feia como nenhuma outra. Não se faziam prisioneiros. Se pegava o inimigo, se

O eu ganhei numa perto de Alegrete. Era de um pica-pau que caiu, um rapaz da minha idade, de bota boa e espora de prata. O cavalo ficou parado do lado do dono, sem fugir, e quando eu cheguei perto ele me olhou de um jeito que eu nunca esqueci, que não era medo nem raiva, era uma espécie de pergunta. Montei nele assim mesmo. Era o melhor que eu já tinha montado. Obedecia ao pensamento. Eu nem tinha decidido virar e ele já estava virando.

Uma noite de outubro, sem lua, o nosso coronel resolveu cruzar o Ibirapuitã por um raso para pegar de surpresa um acampamento pica-pau do outro lado. Éramos quarenta. Fomos entrando na água em silêncio, um atrás do outro, com as armas por cima da cabeça. Quando chegou a minha vez, o parou. Plantou as quatro patas no barro da margem e não houve espora, nem nem reza que o fizesse dar um Eu bati, eu gritei baixinho, eu pedi pelo amor de Deus. Ele tremia inteiro, de orelha em pé, olhando para a outra margem.

O coronel mandou que eu ficasse e cuidasse da retaguarda, e me xingou de um nome que eu não vou repetir pra ti. Fiquei. Os outros trinta e nove atravessaram. Do outro lado, o acampamento estava esperando por eles. Alguém tinha avisado. Eu ouvi tudo da margem de cá, deitado no capim, com a mão no focinho do pra ele não relinchar. Ouvi os tiros e depois não ouvi mais tiro nenhum, que é a pior coisa que se pode ouvir numa guerra daquelas. De manhã, só eu e o cavalo.

Passei anos achando que o tinha adivinhado a emboscada, que bicho sente essas coisas que a gente não sente. Até que, em mil novecentos e cinco, numa feira de gado em Uruguaiana, me apresentaram um velho pica-pau dos brabos, que olhou pro meu cavalo e ficou branco. Perguntou onde eu tinha arranjado aquele Contei. Ele chorou ali mesmo, no meio dos bois. O rapaz de bota boa era o filho dele. E a estância dele, onde o tinha nascido e se criado, ficava justamente do outro lado do Ibirapuitã, naquele raso.

Entende, O cavalo não adivinhou nada. Ele conhecia aquele desde potrinho. Sabia que do outro lado era a casa dele, os pica-paus dele, a gente dele. E não quis atravessar. Não quis voltar pra lá nas minhas costas, carregando o homem que tinha herdado ele do filho morto do patrão. Ou não quis me levar pra morrer. Até hoje eu não sei qual das duas. Talvez as duas. Cavalo também escolhe lado, mas escolhe melhor que a gente, porque escolhe por gente e não por lenço.

Eu dei o pro velho naquele dia mesmo, na feira de Uruguaiana, sem cobrar nada. Ele quis pagar e eu não deixei. Fiquei a pé, voltei pra casa de carona numa carreta de bois. E foi desde aquele dia que eu deixei de usar lenço vermelho, Branco também não. Agora me passa a de novo, que essa história seca a garganta, e não conta nada pra tua avó, que ela vai dizer que o vô inventou.

Comprehension check

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1. Why does the grandfather say he chose the red scarf?

2. What happened to the men who crossed the river?

3. What did he learn at the cattle fair in 1905?

4. What did the grandfather do after that meeting?