Short story
A mulher que desbotava
A planning coordinator at a bank on the Faria Lima starts turning transparent in exact proportion to how much she is ignored.
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Words to know (12)
- o vulto · faint shape, blur
- o desbotamento · fading
- desbotar · to fade
- a lupa · magnifying glass
- o saguão · lobby, entrance hall
- o crachá · ID badge
- o subsolo · basement
- a caldeira · boiler
- a copeira · woman who serves coffee and tea in an office
- acolher · to welcome, take in
- a véspera · the day before, eve
- nítido · sharp, clearly visible
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O primeiro a notar foi o espelho do banheiro do décimo quarto andar. Numa segunda-feira de agosto, Juliana Prado, trinta e oito anos, coordenadora de planejamento de um banco de investimentos na Faria Lima, lavava as mãos depois de uma reunião de duas horas em que ninguém a deixou terminar uma frase, quando percebeu que, através do próprio rosto, conseguia ver os azulejos. Não muito. Um de azulejo na altura da bochecha esquerda, como uma fotografia que ficou tempo demais exposta ao sol.
Na semana seguinte, o chegou aos braços. Juliana ia ficando transparente na exata proporção em que era ignorada: dez por cento numa reunião em que o diretor repetiu a ideia dela como se fosse dele, quinze numa outra em que o estagiário a interrompeu para lhe explicar o relatório que ela mesma tinha escrito. A dermatologista, uma senhora do Paraíso que já tinha visto de tudo, examinou-a com uma suspirou e disse que era um quadro mais comum do que se pensava, sobretudo em mulheres acima dos trinta e cinco. Receitou férias. O banco não aprovou as férias, porque ninguém se lembrava de quem as tinha pedido.
No fim de setembro, Juliana já não aparecia em fotografias e mal aparecia nas videochamadas, onde o sistema a registrava como “participante sem câmera”. Era, curiosamente, uma sensação menos ruim do que ela tinha imaginado. Descobriu que podia entrar em salas sem ser anunciada, ficar até o fim das reuniões sem que ninguém lhe pedisse para buscar café e atravessar o sem cumprimentar o vice-presidente, que de todo modo nunca a tinha cumprimentado.
Foi no elevador de serviço, numa terça-feira à noite, que ela descobriu que não estava sozinha. Dona Cida, da limpeza, olhou diretamente para ela, embora ninguém mais conseguisse, e disse: “Demorou, hein, minha filha.” Dona Cida era quase inteiramente transparente; só as mãos ainda tinham cor, de tanto que trabalhavam. Ao lado dela estavam Seu Valdir, da segurança, de quem se via apenas o e Rosângela, da recepção, que tinha em 2011 sem que ninguém notasse, porque ninguém olhava mesmo para a recepção.
Eles a levaram ao a uma sala atrás das que não constava de nenhuma planta do prédio. Ali funcionava, havia anos, uma espécie de diretoria paralela: quarenta e poucos entre faxineiras, motoboys, técnicos de suporte e duas ex-diretoras que tinham cometido o erro de fazer cinquenta anos. Era ali que se decidia, de fato, se o ar-condicionado do décimo quarto andar ia funcionar, se a sala de reuniões estaria reservada, se o contrato importante chegaria ou não à mesa certa na hora certa. O banco achava que se administrava sozinho. Não se administrava.
Juliana foi com café ruim e bolo bom. Contou a sua história, e ninguém a interrompeu, o que lhe causou uma emoção tão forte que, por um instante, ela recuperou a cor de um dedo inteiro. Rosângela explicou que isso acontecia: quando alguém escuta, a gente volta um pouquinho. “Mas lá em cima ninguém escuta”, disse Dona Cida, “então a gente fica aqui embaixo e cuida das coisas.”
Foi Juliana, com a sua experiência em planejamento, quem propôs a ideia. Numa quinta-feira de novembro, do fechamento do maior negócio do ano, os quarenta e poucos simplesmente não foram trabalhar. Não fizeram greve, não deixaram aviso, não fizeram nada, porque não se pode notar a ausência de quem nunca foi notado. Às dez da manhã, os elevadores pararam. Às onze, o contrato sumiu. Ao meio-dia, a reunião com os investidores estrangeiros começou numa sala sem cadeiras, sem café e sem intérprete, porque a intérprete também tinha em 2019.
O negócio não foi fechado. A imprensa especializada atribuiu o fracasso a “falhas operacionais ainda sob investigação”. Na semana seguinte, o banco contratou uma consultoria para entender o que tinha acontecido; a consultoria entrevistou todos os diretores e não chegou a conclusão nenhuma, porque não lhe ocorreu entrevistar mais ninguém. Juliana continua no prédio. Não aparece em espelhos, mas aparece, cada vez mais no às quintas, quando fala e todos ouvem.
Comprehension check
0/4 answered
1. What made Juliana fade?
2. Why didn't the bank approve her vacation?
3. What happens when someone listens to a faded person?
4. Why couldn't the consulting firm find out what had gone wrong?