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Short story

Errata

An old proofreader at a Belo Horizonte newspaper begins using the corrections column to say something he has never said out loud.

Tap a dotted word for its meaning.

Words to know (11)
  • o revisor · proofreader
  • o ócio · idleness, leisure
  • a errata · correction notice (in a newspaper)
  • a concisão · conciseness
  • o assinante · subscriber
  • franzir a testa · to frown
  • dissipar · to dispel, clear away
  • o obituário · obituary
  • o rastro · trace
  • o recorte · (newspaper) clipping
  • o crachá · ID badge

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Jair Teixeira de Paula foi do Diário do Planalto, em Belo Horizonte, por trinta e quatro anos, e nesse tempo corrigiu, segundo um cálculo que ele mesmo fez numa tarde de cerca de quatro milhões de vírgulas, duzentos mil acentos e onze vezes o nome de um governador escrito com uma letra a menos, sempre a mesma, o que ele considerava menos um erro do que uma opinião. Era também o responsável pela coluna de um quadradinho de oito linhas na página dois que ninguém lia, exceto as vítimas do erro e, com mais prazer, os inimigos delas.

As de Jair eram modelos de mineira. “Na edição de ontem, onde se lê que o secretário de Obras inaugurou a ponte, leia-se que o secretário de Obras inaugurou a placa da ponte.” Ou: “Ao contrário do que foi publicado, a vereadora não disse que estava indignada; disse que estava indignadíssima.” O editor-chefe, Doutor Marcelo, achava aquilo ótimo, porque curtas economizavam espaço, e o espaço, num jornal que perdia todos os meses, era o único patrimônio que ainda crescia.

A mudança começou numa terça-feira de abril. Na véspera, o caderno de cidades tinha publicado uma pequena nota sobre a reforma da lanchonete do prédio do jornal, mencionando “a funcionária Lúcia”. A do dia seguinte dizia: “Na edição de ontem, onde se lê ‘a funcionária Lúcia’, leia-se ‘Dona Lúcia Aparecida, que faz o melhor pão de queijo da Rua Goiás e ri como quem derruba uma bandeja’.” Doutor Marcelo leu, a testa e deixou passar, porque estava atrasado para o almoço.

Na semana seguinte, outra: “Ao contrário do que publicamos, a previsão do tempo não indicava céu limpo para quinta-feira. Indicava céu limpo para quase todo mundo. Sobre a lanchonete do sexto andar, por volta das três da tarde, permanecia uma nuvem pequena, que o deste jornal não soube como E depois: “Onde se lê, no de sábado, ‘deixa viúva e três filhos’, leia-se ‘deixa viúva, três filhos e um vizinho a quem devia uma conversa’.” Os leitores começaram a escrever. Primeiro perguntando o que era aquilo. Depois pedindo mais.

Em junho, a coluna de era a seção mais lida do Diário, segundo a única pesquisa de audiência que o jornal ainda podia pagar. As pessoas abriam o jornal pela página dois. Um professor da Federal escreveu um artigo sobre “a como gênero literário”. Um vereador da oposição passou a cometer erros de propósito nas suas declarações, na esperança de ser corrigido. E todos, em Belo Horizonte, já sabiam quem era Dona Lúcia, exceto, ao que parecia, Dona Lúcia, que não lia jornal porque dizia que notícia ruim ela já tinha de sobra.

Doutor Marcelo chamou Jair à sua sala numa sexta-feira e lhe comunicou duas coisas. A primeira era que o jornal ia deixar de circular em papel no fim do mês, e que a versão digital não teria coluna de porque na internet os erros se corrigem sem deixar A segunda era que ele, Jair, estava aposentado a partir da mesma data, com direito a uma placa e um almoço. Jair agradeceu as duas notícias com a mesma cortesia e voltou para a sua mesa.

A última edição impressa do Diário do Planalto circulou num domingo. Na página dois, no quadradinho de oito linhas, a dizia: “Ao longo dos últimos meses, este jornal publicou diversas correções dirigidas a uma pessoa que nunca as leu. Onde se lê, em todas elas, ‘o deste jornal’, leia-se ‘Jair’. Onde se lê ‘uma nuvem pequena’, leia-se ‘eu’. E onde se lê, no alto desta página, ‘última edição’, leia-se, se a senhora quiser, ‘primeira’.”

Dona Lúcia não leu, porque não lia jornal. Mas a filha dela leu, e a vizinha, e o motorista do ônibus da linha 4103, e mais ou menos meio Belo Horizonte, que no domingo à tarde já tinha feito chegar às mãos dela, por três caminhos diferentes, um da página dois. Na segunda-feira, quando Jair desceu ao sexto andar para devolver o encontrou a lanchonete fechada e um bilhete na porta, escrito à mão, em letra redonda: “Fechado para revisão. Onde se lê ‘segunda-feira’, leia-se ‘café às quatro, na Praça da Liberdade’.” Jair, que tinha corrigido quatro milhões de vírgulas, não encontrou nada para corrigir.

Comprehension check

0/4 answered

1. What were Jair's corrections like at first?

2. Who were the new corrections really about?

3. Why would the digital edition have no corrections column?

4. What did Dona Lúcia's note on the door say?