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Short story

Meio segundo

During tense trade talks at the Itamaraty, a minister forgets his microphone is on, and his interpreter has half a second to decide what he said.

Tap a dotted word for its meaning.

Words to know (12)
  • a cabine · (interpreter's) booth
  • a vidraça · pane of glass, window
  • o desmatamento · deforestation
  • a ressalva · reservation, caveat
  • conversa para boi dormir · nonsense, empty talk (lit. talk to put an ox to sleep)
  • trouxa · sucker, fool (colloquial)
  • ir catar coquinho · to get lost, go away (lit. go and pick little coconuts)
  • a manchete · headline
  • assentir · to nod in agreement
  • o palavrão · swear word
  • a pamonha · sweet corn paste cooked in the husk
  • o acréscimo · addition

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Na de interpretação do Palácio Itamaraty, a é escura por fora e clara por dentro, de modo que os intérpretes veem todo mundo e ninguém os vê. Beatriz Okamoto trabalhava ali havia dezesseis anos e costumava dizer que era a melhor definição da profissão: estar na sala sem estar na sala, falar com a voz de outro sem que a própria voz se note. Um bom intérprete, dizia, é como o vidro de uma janela limpa. Só se percebe que existe quando suja.

Naquela manhã de junho, a reunião era entre o ministro brasileiro da Agricultura e o ministro do Comércio de um país nórdico que importava muita soja e reclamava muito do O clima já tinha começado ruim e piorava a cada slide. O ministro nórdico falava um inglês lento e frio, cheio de e de “com todo o respeito”, e Beatriz o vertia para o português com a mesma temperatura. O ministro brasileiro, um ex-produtor rural de Mato Grosso que tinha chegado ao cargo pelo carisma e não pela paciência, ia ficando vermelho.

Às onze e quarenta, depois de ouvir pela terceira vez a palavra “condicionalidades”, ele se inclinou para o lado, esqueceu que o microfone estava aberto e disse, para o assessor, mas na prática para a sala inteira: “Fala para esse sujeito que essa proposta é conversa para dormir, e que, se ele acha que a gente é ele que vá catar Houve um silêncio na delegação brasileira. Na Beatriz tinha mais ou menos meio segundo.

Meio segundo é muito tempo para um intérprete. Cabe nele uma carreira inteira. Ela poderia traduzir ao pé da letra, e a reunião acabaria ali, com um incidente diplomático e uma Poderia ficar calada, e o silêncio no fone do ministro nórdico seria quase tão eloquente quanto a frase. Ou poderia fazer aquilo que os manuais da profissão condenam e que todos os intérpretes, em algum momento, fazem. Beatriz respirou fundo e disse, num inglês impecável, que o ministro considerava a proposta ainda pouco convincente e convidava a delegação a uma reflexão mais aprofundada sobre as expectativas brasileiras.

O ministro nórdico anotou alguma coisa e, pela primeira vez na manhã, sorriu. A reunião foi retomada. Às duas da tarde, para espanto dos dois governos, havia um rascunho de acordo, com metas de menos duras do que um lado queria e mais duras do que o outro aceitava, o que é a definição técnica de um bom acordo. Os assessores se cumprimentaram. A imprensa falou em “química pessoal entre os ministros”.

Quando a sala esvaziou, alguém bateu à porta da o que nunca acontece. Era o ministro nórdico, sozinho, de paletó no braço. Entrou, olhou o vidro escuro com curiosidade e disse, num português com sotaque paulista que surpreendeu Beatriz mais do que qualquer “Eu fiz mestrado em Campinas, nos anos noventa. Catar eu sei o que é.” Ela gelou. Ele continuou: “A senhora traduziu o que ele deveria ter dito. Eu preferi acreditar na senhora.” E, antes de sair, perguntou se ela sabia onde ainda se vendia em Brasília, porque estava com saudade.

Beatriz passou a tarde com o dilema em cima da mesa, ao lado da garrafa de água. O código de ética era claro: fidelidade ao sentido, sem nem omissões. Ela tinha, em sentido estrito, falsificado a voz de um ministro de Estado. Deveria relatar o caso à chefia? Deveria contar ao ministro brasileiro que o acordo de que ele tanto se orgulhava nascera de uma frase que ele não disse? Deveria, ao menos, sentir culpa? Tentou. Não conseguiu, o que a preocupou mais do que a falta em si.

Não relatou nada. À noite, em casa, abriu o caderno em que, desde o primeiro ano de profissão, anotava as frases difíceis. Escreveu numa linha o que o ministro disse. Na linha de baixo, o que ela disse. E entre as duas deixou um espaço em branco, largo, que ficou olhando por muito tempo. Depois escreveu na margem, com letra pequena, a palavra que usava para aquele espaço desde os tempos de faculdade, e que nenhum dicionário registra com esse sentido: ofício.

Comprehension check

0/4 answered

1. How does Beatriz describe a good interpreter?

2. What did the Brazilian minister do at 11:40?

3. What surprised Beatriz when the Nordic minister came to the booth?

4. What did Beatriz finally do about her dilemma?