Short story
O alfaiate de sombras
Behind a narrow door in Salvador's Baixa dos Sapateiros, an old tailor mends not clothes but people's shadows.
Tap a dotted word for its meaning.
Words to know (12)
- o alfaiate · tailor
- puído · worn thin, threadbare
- a freguesia · clientele, regular customers
- cerzir · to darn
- embolar-se · to get tangled up
- a bainha · hem
- o remendo · patch, repair
- o calcanhar · heel
- despregar-se · to come unstuck, come loose
- a soleira · doorstep, threshold
- o acarajé · Bahian fritter of black-eyed peas fried in dendê oil
- o avesso · reverse side, wrong side (of fabric)
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Na Baixa dos Sapateiros, em Salvador, entre uma loja de tecidos que está sempre em liquidação e uma farmácia que nunca fecha, há uma porta estreita com uma placa de madeira em que se lê, em letras que já foram douradas: Damião Conceição, Consertos em Geral. A placa mente por modéstia. Seu Damião não conserta roupas há trinta anos. Conserta sombras.
O ofício veio do avô, que veio de Cachoeira, que veio do Recôncavo, que veio de mais longe do que alguém se lembra. As sombras, explicava Seu Damião aos raros curiosos, são feitas de um tecido como outro qualquer, só que mais fino, e se gastam como qualquer tecido: nos joelhos de quem reza muito, nos cotovelos de quem trabalha apoiado, na altura do peito de quem sofreu demais. Uma sombra não dói, mas deixa a pessoa estranha, meio fora de foco, como uma conversa em que falta uma palavra.
A era variada e discreta. Vinha uma senhora do Garcia cuja sombra tinha rasgado ao meio no velório do filho, e Seu Damião a com linha preta número dez, ponto por ponto, sem cobrar. Vinha um deputado estadual, de óculos escuros, que queria a sombra encurtada, porque ela andava muito comprida e chegava aos lugares antes dele, o que dava mau aspecto em época de eleição. Vinha uma moça do Rio Vermelho que tinha duas sombras, a dela e a do marido que morrera, e que não queria que ele tirasse nenhuma, só que as costurasse juntas, para não se na hora de dormir.
Seu Damião trabalhava com tesoura, agulha e uma vela posicionada com precisão, porque sombra só se costura contra a luz. Era um trabalho lento. Uma de sombra levava uma tarde. Um grande, uma semana. O mais difícil, dizia, eram as sombras das crianças, que não paravam quietas, e as dos políticos, que nunca estavam onde pareciam estar.
Em janeiro, Seu Damião fez oitenta e sete anos e notou, na parede da oficina, que a sua própria sombra começava a se soltar. Primeiro pelos que é por onde elas se quando a pessoa já está de partida. Depois pelas mãos. De manhã, quando ele abria a porta, a sombra demorava alguns segundos para acompanhá-lo, como um cachorro velho que hesita na Ele conhecia o sintoma. Tinha visto no avô.
Não tinha filhos. Tinha um aprendiz, ou quase isso: Tiago, catorze anos, neto da baiana do da esquina, que passava as tardes na oficina porque ali era fresco e porque o velho contava histórias. Tiago nunca tinha visto uma sombra ser costurada; achava que tudo aquilo era conversa de velho, das boas. Seu Damião nunca o tinha corrigido, porque sabia que, no seu ofício, a crença não vem antes do trabalho: vem depois, quando as mãos já aprenderam sozinhas.
Numa quinta-feira de janeiro, dia da Lavagem do Bonfim, quando a cidade inteira estava na rua e a Baixa dos Sapateiros ficou deserta, Seu Damião chamou o menino, acendeu a vela, sentou-se contra a luz e lhe entregou a agulha. Disse que ia ensinar só uma vez, porque era só uma vez que se ensinava. Tiago riu, achando que era brincadeira, e depois parou de rir, porque a agulha, na mão dele, encontrou resistência no ar, como se o ar tivesse um Durante quatro horas, guiado pela voz do velho, o menino costurou a sombra de Seu Damião à sua própria, pelo com pontos pequenos e firmes.
Seu Damião morreu em março, dormindo. No enterro, no Campo Santo, quem prestou atenção notou que o menino Tiago tinha uma sombra comprida demais para a idade, e que ela, de vez em quando, coçava a cabeça com um gesto que não era de criança. A placa da Baixa dos Sapateiros continua lá, com as letras que já foram douradas. Tiago acrescentou embaixo, com tinta nova, duas palavras: e Aprendiz. Às quintas, quando alguém bate à porta com a sombra rasgada, ele acende a vela, se senta contra a luz e escuta, atrás de si, uma voz que lhe diz, com toda a paciência, por onde passar a linha.
Comprehension check
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1. Where, according to Seu Damião, do shadows wear out?
2. What did the state deputy want done to his shadow?
3. What told Seu Damião that his death was near?
4. What did Tiago do on the day of the Lavagem do Bonfim?