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Short story

A reza de Mãe Dondinha

In the backlands of Sergipe in the 1930s, a band of cangaceiros rides into a village and orders the old prayer woman to make one of them bulletproof.

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Words to know (12)
  • a espinhela caída · folk ailment of the chest (fallen breastbone)
  • o quebranto · illness caused by the evil eye
  • a arruda · rue (herb used in folk healing)
  • a cartucheira · cartridge belt
  • o cabra · guy, tough (in the Northeast)
  • vosmecê · you (old rural form of address)
  • fechar o corpo · to make someone's body invulnerable by prayer
  • o macaco · policeman (cangaceiro slang)
  • o buço · faint mustache, down on the lip
  • o tamborete · stool
  • a volante · mobile police troop that hunted cangaceiros
  • a grota · ravine

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Em Poço Redondo, na beira do São Francisco, ninguém sabia a idade de Mãe Dondinha. Uns diziam noventa, outros cem, e ela própria, quando perguntavam, respondia que tinha a idade da reza, que é mais velha que a igreja. Curava caída, mau-olhado e dor de dente, com um raminho de e umas palavras que ninguém entendia direito, porque ela as dizia baixinho, pra dentro, como quem conversa com alguém que mora no peito.

Numa tarde de junho de 1936, entraram na vila doze homens a cavalo, de chapéu de couro dobrado em meia-lua, coberto de estrelas de prata, com cruzadas no peito e lenços de seda no pescoço. O povo fechou as portas. Os homens desceram na frente da casa de Mãe Dondinha, e o chefe, um moreno de óculos redondos, bateu na janela com o cano do rifle. “Abra, minha velha, que a gente não vem fazer mal. Vem fazer negócio.”

Ela abriu. Olhou os doze, um por um, devagar, como quem conta galinha. “Que negócio quer com uma velha que não tem nada?” O chefe tirou o chapéu, coisa que ninguém nunca o tinha visto fazer, e explicou. Um dos rapazes do bando tinha levado tiro na semana anterior, de raspão, e ficara assombrado. “Quero que a senhora o corpo dele. Que bala de não entre, nem faca, nem veneno. Me disseram que a senhora sabe a oração.” E mostrou, para não deixar dúvida, um saquinho de moedas e o cabo do punhal.

Mãe Dondinha pediu que trouxessem o rapaz. Era um menino, quinze anos se tanto, magro, de ralo, que se escondia atrás do chapéu grande demais como bezerro atrás da vaca. Chamava-se Jovino e tinha os olhos de quem não dorme. Ela mandou que os outros saíssem. “Reza de corpo não se faz com plateia, nem com homem armado na porta. Vão beber água no rio, que eu chamo quando acabar.” O chefe hesitou, depois riu, e levou o bando para a beira do São Francisco.

Quando ficaram sós, a velha sentou o menino num molhou a num copo de água e começou a passar o ramo pelo corpo dele, da cabeça aos pés, rezando baixinho. Jovino tremia. Ela parou no meio da reza e perguntou, sem mudar o tom: “Tu já mataste gente, meu filho?” Ele demorou a responder. Disse que não, que ainda não, que só tinha ficado de vigia. “Pois então escuta, que eu só digo uma vez. Corpo é coisa que existe, mas tem preço. A oração só segura quem não atira. No dia em que tu puxares o gatilho, a reza se desmancha, e a primeira bala que vier é tua.”

O menino arregalou os olhos. Ela continuou rezando, agora em voz alta, uma ladainha comprida de santos e de rios, e ao fim fez-lhe três cruzes na testa com o polegar molhado. “Pronto. Tá Agora vai e faz o que tu quiseres com isso. Eu só fecho a porta. Quem anda pelo caminho é tu.” Jovino saiu da casa sem olhar para trás. O chefe pagou o que tinha prometido, beijou a mão da velha e os doze foram embora pela estrada de Piranhas, levantando poeira até sumirem.

Dois anos depois, em julho de 1938, a da polícia cercou o bando numa de Angico, a poucas léguas dali, e matou o chefe, a mulher dele e mais nove. As cabeças foram expostas nas escadarias das igrejas e fotografadas para os jornais do Brasil inteiro. Mãe Dondinha mandou um neto que sabia ler conferir os nomes no jornal. Jovino não estava. O neto perguntou por que ela queria saber. Ela não respondeu.

Muitos anos depois, quando a velha já estava enterrada no cemitério de Poço Redondo, apareceu na vila um homem de uns cinquenta anos, vendedor de redes em Aracaju, que pediu para ver a cova dela. Ficou um tempo de pé, de chapéu na mão, e deixou em cima da cruz um raminho de Ao coveiro, que perguntou se ele era parente, disse que não, que era só alguém que tinha o corpo como?”, quis saber o coveiro. pra fora”, respondeu o homem. “Nunca atirei em ninguém.”

Comprehension check

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1. What did the band's leader want from Mãe Dondinha?

2. Why did she send the other men away?

3. What condition did she attach to the prayer?

4. Who is the man who visits her grave?