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Short story

Previsão do tempo

On the night of December 13, 1968, as military censors take over a Rio newsroom, the paper's pedantic weatherman is asked to write a forecast he knows is scientifically wrong.

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Words to know (11)
  • o boxe · box (a framed section in a newspaper)
  • o estagiário · intern
  • abafado · muggy, stuffy
  • a nebulosidade · cloud cover
  • cassar · to strip of political rights
  • riscar · to cross out
  • o velório · wake (before a funeral)
  • a passeata · street protest march
  • sufocante · suffocating
  • a manchete · headline
  • o quadro de avisos · bulletin board

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Durante vinte e dois anos, Hermes Bittencourt escreveu o da previsão do tempo da Gazeta Carioca e, em todo esse tempo, nunca escreveu um adjetivo. Era uma questão de princípio. A meteorologia, dizia ele aos que ousavam sugerir “manhã agradável” ou “tarde é uma ciência, e ciência não tem opinião sobre o tempo: tem números. Temperatura máxima, temperatura mínima, umidade relativa, direção do vento, em oitavos. O resto era poesia, e poesia, para Hermes, era assunto da página de literatura, dois andares acima.

Na noite de 13 de dezembro de 1968, a redação estava estranha. Havia três homens de terno escuro sentados à mesa do editor-chefe, lendo tudo antes de descer para a oficina. O rádio tinha anunciado, naquela noite, um ato institucional que fechava o Congresso, suspendia o habeas corpus e dava ao governo o direito de quem quisesse. Os repórteres andavam em silêncio, como em Matérias inteiras voltavam a lápis vermelho. Hermes, que não lia a primeira página por considerá-la sensacionalista, entregou o seu às dez horas, como sempre: “Céu claro a parcialmente nublado. Máxima de 36 graus. Mínima de 24. Ventos fracos de nordeste.”

Às onze, o editor-chefe chamou-o à sala do café, longe dos homens de terno, e pediu-lhe uma coisa absurda. Queria outra previsão. Queria que ele escrevesse que o tempo estava negro, que o ar estava irrespirável, que o país estava sendo varrido por ventos fortíssimos. Hermes achou que era brincadeira. Depois achou que o editor tinha bebido. Depois entendeu, e ficou pálido, não de medo, mas de indignação científica. “Isso é mentira”, disse. “Amanhã vai fazer sol. Eu tenho os dados do aeroporto.” O editor respondeu, com uma paciência que lhe custava muito: “Seu Hermes, é a única página que eles não vão ler.”

Hermes voltou para a sua mesa e ficou meia hora olhando a folha em branco. Pensou nos vinte e dois anos sem adjetivo. Pensou na sobrinha, estudante de arquitetura, que tinha sido presa em junho numa e voltado para casa sem querer contar o que acontecera. Pensou que, se escrevesse aquilo, estaria mentindo para milhares de leitores que confiavam nele para saber se levavam guarda-chuva. Pensou também que talvez nenhum desses leitores, naquela noite, estivesse realmente preocupado com chuva.

Então escreveu. Não a mentira que o editor pedira, mas uma coisa que lhe pareceu, ao mesmo tempo, honesta e criminosa. Manteve os números, todos verdadeiros, e acrescentou, pela primeira e única vez na vida, adjetivos. Escreveu que a temperatura seria Que a visibilidade seria nula. Que a pressão estaria em alta em Brasília e em queda no resto do país. E, no lugar da temperatura mínima, onde sempre escrevia o nome do bairro mais frio da cidade, colocou o nome do palácio onde morava o presidente. Releu tudo três vezes. Tecnicamente, não havia nenhum dado falso.

Os homens de terno leram as as colunas, os editoriais e as cartas dos leitores. Não leram a previsão do tempo. Na manhã seguinte, o de Hermes foi recortado e passado de mão em mão nos bares do centro, nas faculdades, nas filas de ônibus. Alguém o colou no de avisos da Escola de Arquitetura. Pela primeira vez em vinte e dois anos, as pessoas comentavam a previsão do tempo, e ninguém falava da chuva. Um leitor de Niterói escreveu ao jornal perguntando, com toda a seriedade, se devia cancelar as férias em Cabo Frio. A carta não foi publicada.

O dia 14 de dezembro de 1968, no Rio de Janeiro, foi de sol forte, com máxima de 36 graus, mínima de 24 e ventos fracos de nordeste, exatamente como os dados do aeroporto haviam indicado. Hermes Bittencourt acertou a previsão, como acertava quase sempre. Mesmo assim, contou muitos anos depois, aposentado, à sobrinha já arquiteta, aquele foi o único dia em que se sentiu orgulhoso de ter errado. Ela lhe respondeu que ele não tinha errado nada. Hermes, fiel até o fim aos números, nunca concordou.

Comprehension check

0/4 answered

1. What had been Hermes's professional principle for twenty-two years?

2. Why did the editor ask for a different forecast?

3. How did Hermes solve his dilemma?

4. How did Hermes later view that day?