Short story
O remador da Cabanagem
In Belém in 1835, as rebels take the city, a judge disguised as a woman escapes up the rivers in the canoe of a silent Indigenous boatman.
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Words to know (12)
- o remador · rower, boatman
- o cabano · rebel of the Cabanagem uprising
- o igarapé · narrow Amazonian waterway
- o tapuio · Indigenous or mixed-race river dweller (old term)
- a chita · cheap printed cotton
- o paneiro · woven palm basket
- o furo · channel linking two rivers
- a língua geral · Tupi-based lingua franca of the Amazon
- a corja · rabble, gang
- a toada · folk song, chant
- o trapiche · small wooden pier
- o açougue · butcher shop (here: slaughter)
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As memórias do desembargador Antero Pimenta de Castro, publicadas em Lisboa em 1851, dedicam onze páginas à sua fuga de Belém em janeiro de 1835, quando os tomaram o palácio e mataram o presidente da província. São páginas cheias de bravura e de engenho. O desembargador conta como, sozinho, enganou as patrulhas rebeldes, como se escondeu nos durante nove dias e como chegou, por sua própria astúcia, à vila de Cametá, onde as tropas leais o receberam como herói. Há um detalhe que as memórias mencionam numa linha só: “servi-me, para remar, de um que encontrei no porto, homem rude e calado”.
O chamava-se Raimundo e não era calado. Só não falava com desembargadores. Encontrou o homem às quatro da manhã no porto do Ver-o-Peso, vestido com uma saia de um xale da cozinheira e uma touca de renda que não escondia o bigode. O desembargador ofereceu-lhe uma moeda de prata e um tom de voz que se usava com os cães. Raimundo pegou a moeda, olhou para o bigode, ajeitou-lhe o xale para cobrir melhor o rosto e mandou-o deitar no fundo da canoa, debaixo de uns de farinha.
Durante nove dias, Raimundo remou. Saiu pela baía do Guajará antes do sol, entrou pelos que só os pescadores conheciam, passou rente às margens onde a mata cobria a canoa como uma mão em concha. Duas vezes encontraram canoas de Na primeira, Raimundo cumprimentou os rebeldes pelo nome, em língua e eles riram de alguma coisa que disse, olhando para a velha de xale deitada entre os Na segunda, um rapaz perguntou quem era a passageira. Raimundo respondeu que era a sogra dele, que estava muito doente e muito brava. Deixaram passar.
O desembargador não entendia a língua mas entendia que estava vivo. Nos primeiros dias, falou muito. Explicou a Raimundo que os eram uma de selvagens e de mestiços, que não sabiam o que queriam, que a ordem seria restabelecida em poucas semanas e que, nesse dia, cada um deles seria enforcado nas árvores da praça. Raimundo ouvia, remava e às vezes cantava baixinho uma em nheengatu. No quarto dia, o desembargador quis saber o que dizia a canção. Raimundo disse que falava de um rio que corre para trás. O desembargador achou aquilo uma tolice de índio e dormiu.
No sétimo dia, com febre, o desembargador viu, ou julgou ver, uma coisa que nunca contou a ninguém. Ao amanhecer, Raimundo tirou do fundo da canoa, debaixo de onde dormia, uma faca comprida, uma bandeira vermelha dobrada e um papel com um selo, que leu atentamente, mexendo os lábios. Leu. Um que lia. Depois guardou tudo de novo, voltou a remar e não disse nada. O desembargador fingiu dormir até a tarde. Não perguntou. Começou, pela primeira vez, a agradecer a farinha e a água.
Chegaram a Cametá no nono dia, perto do meio-dia. Raimundo encostou a canoa num afastado, longe dos soldados, ajudou o passageiro a descer e devolveu-lhe a touca de renda, que tinha caído no rio e ele resgatara com o remo. O desembargador, já de pé no perguntou-lhe, quase com medo, por que o salvara. Raimundo pensou um pouco e respondeu, num português perfeito, de quem tinha sido educado pelos padres: “Porque a gente está fazendo uma revolução, doutor. Não um E porque alguém precisa ficar vivo pra escrever que fugiu sozinho.”
O desembargador escreveu. Escreveu exatamente isso, que fugira sozinho, e acrescentou a linha sobre o rude e calado. A Cabanagem foi esmagada em 1840, com uma violência que, segundo estimativas correntes, matou de um quarto a um terço da população do Pará. Não se sabe o que aconteceu a Raimundo. Nas memórias do desembargador, porém, há uma frase curiosa, perdida no capítulo sobre a repressão, que nenhum historiador conseguiu explicar. Diz que, depois da guerra, ele pediu ao governo que poupassem os de Cametá, “por motivos que só Deus e eu conhecemos”.
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1. How do the judge's memoirs describe his escape?
2. How did Raimundo get them past the second rebel canoe?
3. What did the judge see on the seventh day?
4. What does the last sentence of the story suggest?