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Short story

Retrato de viúvo

In Rio in 1866, a photographer's assistant helps take a portrait of a baron beside his dead wife, a man the whole city says married her only for her money.

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Words to know (11)
  • o ateliê · studio
  • nítido · sharp, in focus
  • a nuca · nape of the neck
  • o anjinho · little angel (a dead infant)
  • borrado · blurred
  • o brasão · coat of arms
  • o comissário de café · coffee broker
  • o frete · freight charge
  • o espaldar · chair back
  • revelar · to develop (a photograph)
  • a fofoca · gossip

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Na Rua do Ouvidor de 1866, o de Monsieur Fréchette tinha o melhor vidro de teto da Corte e a pior fama entre as crianças, que juravam que ali dentro se roubava a alma das pessoas por meio de uma caixa preta. Eu tinha dezessete anos, era o ajudante do francês e sabia que não era bem assim. A caixa não roubava a alma: só era lenta. Para que um rosto saísse no vidro, a pessoa precisava ficar imóvel durante quarenta segundos, presa pela a um suporte de ferro, sem piscar, sem respirar fundo, sem pensar em nada que fizesse tremer o lábio.

Por isso os mortos eram os nossos melhores clientes. Não se mexiam. Vinham famílias pobres da Cidade Nova com os vestidos de branco, coroa de flores de papel na cabeça, para tirar o único retrato que aquelas crianças teriam na vida. Vinham famílias ricas com avôs embalsamados de casaca. Nos retratos de família com um morto, havia sempre o mesmo fenômeno, que Monsieur Fréchette chamava, com um gosto um pouco macabro, de “ironia química”: os vivos saíam porque respiravam, e o morto saía perfeito, quase mais vivo que todos.

Numa manhã de abril, parou na porta uma carruagem com o do barão de Itaguaí. A cidade inteira conhecia a história do barão. Era um homem de cinquenta anos, sem fortuna e sem gosto, que dez anos antes se casara com a filha única de um de café, moça de vinte anos, doente dos pulmões, dona de três fazendas no Vale do Paraíba. Nos salões, dizia-se que ele casara com as fazendas e aceitara a moça como quem aceita o Ela tinha morrido na véspera. E o barão queria um retrato dos dois juntos.

Fizemos como se fazia. Sentamos a baronesa numa poltrona de veludo, com um vestido de seda cinzenta e as mãos cruzadas sobre um livro de orações. Monsieur Fréchette lhe abriu os olhos com uma delicadeza de cirurgião e pintou-lhe as pupilas, depois, no próprio vidro. O barão ficou de pé ao lado, com a mão no da poltrona, preso pela ao suporte de ferro. Pedimos-lhe que não se mexesse. Ele fez que sim com a cabeça, rígido, a barba grisalha apontada para a lente. Monsieur Fréchette tirou a tampa e começou a contar em francês.

Aos vinte segundos, percebi que alguma coisa estava errada. O barão não se movia, mas tremia. Era um tremor fino, contínuo, que começava nos ombros e descia pelo braço até a mão pousada na poltrona, como um fio de água correndo por baixo de uma pedra. Os olhos estavam fixos na lente, secos, abertos, e o rosto não mudava. Mas o corpo inteiro tremia, sem parar, durante os quarenta segundos, como tremem os fios do telégrafo quando passa uma notícia que ninguém lê.

Quando o vidro, no quarto escuro, Monsieur Fréchette ficou muito tempo calado sob a luz vermelha. A baronesa estava perfeita: cada renda do vestido, cada fio de cabelo, as mãos sobre o livro, os olhos pintados que pareciam olhar para o dia seguinte. Ao lado dela, o barão era uma mancha. Não se distinguia a barba, nem o nariz, nem o no botão da casaca. Era uma nuvem cinzenta com a forma de um homem, uma sombra em pé ao lado de uma mulher Monsieur Fréchette disse que precisávamos repetir. Disse que nunca entregava trabalho

O barão não deixou. Veio buscar o retrato pessoalmente, olhou-o à luz da janela e pagou o dobro do preço. Antes de sair, disse uma única frase, que eu guardei como se guarda um troco que não se merece: “Ficou exato.” Durante anos, os salões continuaram dizendo que ele casara por dinheiro. Eu nunca desmenti, porque ninguém me perguntou. Mas sempre que ouvia a história, pensava naquele vidro, onde a química, que não conhece registrara a única verdade que quarenta segundos podem guardar: que, dos dois, a viva era ela.

Comprehension check

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1. Why were the dead, in the narrator's words, the best clients?

2. What did the city say about the baron?

3. Why is the baron only a blur in the portrait?

4. What does the narrator conclude from the photograph?