Short story
O vacinador
In Rio in November 1904, a young vaccinator enters a crowded tenement in Saúde just as the city rises against compulsory vaccination.
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Words to know (12)
- a lanceta · lancet
- a linfa · vaccine lymph
- a varíola · smallpox
- o cortiço · slum tenement
- o estivador · longshoreman, stevedore
- a soleira · doorstep, threshold
- a ordenhadora · milkmaid
- o estrondo · loud bang
- o paralelepípedo · paving stone, cobblestone
- a fresta · crack, chink
- torcer · to wring (out)
- o porão · ship's hold
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Lauro Fontes tinha vinte e três anos, um diploma de farmacêutico, uma maleta de couro com e tubos de e a certeza, típica de quem estudou muito e viveu pouco, de que a ciência é uma coisa que se aplica nas pessoas como se aplica tinta numa parede. Trabalhava na brigada sanitária do doutor Oswaldo Cruz e acreditava nela como os padres acreditam no batismo. A matava milhares de cariocas por ano. A vacina era obrigatória desde o fim de outubro. A conta, para ele, era simples.
Na manhã de 10 de novembro de 1904, mandaram-no ao da Rua da Harmonia, no bairro da Saúde, acompanhado de dois soldados. Era um casarão colonial dividido em quarenta cubículos, onde moravam lavadeiras, vendedores ambulantes, uma família de baianos e um alfaiate italiano. Mal entraram no pátio, as portas se fecharam uma após a outra, como um leque. Só uma ficou aberta. Na de braços cruzados e pano na cabeça, estava uma mulher de uns sessenta anos, preta, alta, que todos chamavam de Tia Zefa.
“O moço vem furar o braço de quem?”, perguntou ela. Lauro explicou, com o tom de quem dá aula, o que era a o que era a vacina, como Jenner tinha descoberto que as de vacas não pegavam a doença. Tia Zefa ouviu até o fim, com uma atenção que o desconcertou. Depois disse que não duvidava de nada daquilo. Duvidava era de que um rapaz que ela nunca tinha visto entrasse no quarto das mulheres do com dois soldados para lhes levantar a manga, ou a saia, que era onde, segundo se dizia na rua, os vacinadores estavam picando as moças.
Lauro ficou vermelho. Ia responder que era calúnia dos jornais da oposição quando ouviu o primeiro vindo da Praça da República. Depois outro. Depois gritos, correria, o barulho de bondes sendo virados. Um menino entrou no pátio correndo e gritou que tinham levantado barricada na Rua da Harmonia, com e trilhos arrancados, e que estavam chamando aquilo de Porto Arthur, como a fortaleza da guerra dos russos com os japoneses. Os dois soldados sumiram pelo portão. Lauro ficou sozinho no pátio, de maleta na mão, no meio de quarenta portas fechadas.
Foi Tia Zefa quem o puxou para dentro. Escondeu a maleta debaixo da cama, deu-lhe um chapéu de palha e uma camisa de e mandou-o sentar no banquinho e descascar mandioca, que homem descascando mandioca ninguém procura. Durante três dias, enquanto a cidade ardia, o vacinador ficou naquele quarto de quatro metros, ouvindo pelas os tiros, os sinos, a cavalaria. E ouvindo Tia Zefa, que falava enquanto lavava roupa.
Contou-lhe que tinha morado vinte anos num sobrado da Rua da Prainha, até o dia em que chegaram homens com papel da prefeitura e o derrubaram para abrir uma avenida larga como as de Paris. Contou que os vizinhos foram para os morros, para os subúrbios, para a rua. Contou que ninguém lhes perguntou nada, e que agora vinham os mesmos homens, de outro uniforme, com outra agulha, sem perguntar nada outra vez. “Não é a vacina, menino”, disse ela, um lençol. “É a mão de quem vacina. O povo já conhece essa mão. Ela derruba casa, ela prende, ela vacina, e é sempre a mesma.”
A revolta foi esmagada em uma semana. Centenas de pessoas foram presas e mandadas para o Acre nos de navios; a obrigatoriedade da vacina foi suspensa. Lauro voltou ao laboratório e, por quatro anos, não falou de Tia Zefa com ninguém. Em 1908, uma nova epidemia de matou milhares de pessoas no Rio. No auge dela, numa manhã de chuva, uma mulher alta, de pano na cabeça, bateu à porta do posto sanitário onde ele trabalhava, trazendo pela mão quatro netos.
Lauro foi buscar a maleta. Tia Zefa o deteve com um gesto. Disse que vinha vacinar os meninos, sim, porque não era tola, mas que vinha também cobrar uma coisa. Estendeu a mão aberta. Ele demorou um segundo a entender. Depois esterilizou a na chama, molhou-a na e entregou-a a ela, com o cabo virado, como se entrega uma faca a quem se respeita. Tia Zefa vacinou os quatro netos, um por um, com mão firme, enquanto ele segurava os bracinhos. Quando terminou, devolveu-lhe a e disse apenas: “Assim, sim.”
Comprehension check
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1. What did Lauro believe about science at the start?
2. What was Tia Zefa's first objection?
3. According to Tia Zefa, what was the revolt really about?
4. How did the vaccination of the grandchildren take place in 1908?