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Short story

A viradora de páginas

In February 1922, a nineteen-year-old music student turns the pages for a pianist at São Paulo's Modern Art Week while the audience howls.

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Words to know (12)
  • a viradora de páginas · page-turner (woman)
  • a partitura · musical score
  • o compasso · bar (in music)
  • o acorde · chord
  • o colete · vest
  • o saguão · lobby, foyer
  • miar · to meow
  • a vaia · booing, jeering
  • o amontoado · heap, jumble
  • sem pé nem cabeça · making no sense at all
  • o camarim · dressing room
  • a presença de espírito · presence of mind, quick wits

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Tenho oitenta e um anos e já me perguntaram tantas vezes sobre a Semana de Arte Moderna que aprendi a contar a versão que as pessoas querem ouvir: os rapazes ousados, a burguesia escandalizada, o Brasil descobrindo que podia ser moderno sem pedir licença a Paris. É tudo verdade, ou quase. Mas eu estava no palco do Theatro Municipal em fevereiro de 1922, e o que vi de lá não cabe nos manuais. Eu era a de páginas.

Tinha dezenove anos e estudava piano no Conservatório. O professor me indicou porque eu lia depressa e, como ele disse, “não tinha opinião”, qualidade rara numa moça e indispensável numa Meu trabalho era sentar à esquerda do pianista, Ernesto Valle, e virar a folha um antes do fim, nem cedo nem tarde, sem fazer barulho, sem respirar alto, sem existir. Ensaiamos durante uma semana uma peça de um compositor jovem chamado Teodoro Lins, cheia de que pareciam escadas caindo. Eu achava linda. Não disse a ninguém.

Na noite da apresentação, o teatro estava lotado de gente que tinha vindo para não gostar. Meu pai estava na plateia, na sexta fila, com o chapéu no colo e a pena de crítico do Correio pronta no bolso do Antes de nós, um rapaz magro, de óculos, que diziam ser professor do Conservatório e poeta, lera alguma coisa na escadaria do sob uma chuva de risadas. Depois veio um senhor recitando versos que imitavam sapos, e a plateia respondeu imitando cachorros. Quando Ernesto Valle entrou, de casaca, alguém da galeria cantou como galo.

Ele começou bem. Os primeiros caíram na sala como pedras num lago, e houve um segundo de silêncio verdadeiro, desses que dão medo. Depois a galeria descobriu que podia Alguém atirou uma moeda, que rolou pelo palco e parou junto ao meu sapato. Na terceira página, vi que as mãos do pianista não correspondiam mais ao que estava escrito. Ernesto se perdera. Tocava outra coisa, uma coisa que não estava em nenhuma, com os olhos fixos na folha e o rosto molhado de suor.

Tive então a única ideia original da minha vida. Continuei virando as páginas. Não no ritmo da música, que já não existia, mas no ritmo que ela teria tido, contando os de cabeça, um, dois, três, quatro, virar. Ernesto entendeu na hora. Passou a olhar para as folhas como se as lesse e a improvisar com uma fúria que nunca vi em concerto nenhum, antes ou depois. A plateia, que não conhecia a peça, não percebeu nada. Ou melhor: percebeu que era horrível, e era isso que tinha vindo perceber.

Quando terminamos, a durou mais do que a música. Ernesto se levantou, fez uma reverência profunda e, de costas para a plateia, enquanto fingia arrumar as me disse baixinho: “A senhorita acaba de salvar a minha vida e de arruinar a minha consciência.” Eu não respondi. de páginas não tem opinião.

No dia seguinte, meu pai escreveu no Correio que a peça do senhor Lins era “um de ruídos sem nem cabeça, que nenhum pianista sério ousaria executar duas vezes da mesma maneira”. Nunca uma crítica foi tão exata. Teodoro Lins, que estivera na plateia e não reconhecera a própria obra, foi ao abraçar Ernesto com lágrimas nos olhos e agradecer a fidelidade da interpretação. Disse que nunca imaginara que a sua música pudesse soar tão nova.

Os livros contam que a Semana durou três noites e mudou a arte brasileira. Não discuto. Só acrescento, para quem quiser saber, que a peça mais moderna daquelas noites ninguém compôs, ninguém escreveu e ninguém nunca mais tocou. Foi feita de medo, de miados e de uma moça contando até quatro. Ernesto Valle e eu nos casamos dois anos depois. Ele nunca me deixou virar uma página para ele outra vez. Dizia que não confiava em mulher com tanta de espírito.

Comprehension check

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1. Why did the teacher choose the narrator as page-turner?

2. What went wrong on the third page?

3. Why is the father's review called "tão exata"?

4. How did the composer react?