Short story
O calendário de 1970
In 1979, after the amnesty, a woman waits at Rio's Galeão airport for the brother who went into exile nine years earlier and now returns with a family she has never met.
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Words to know (11)
- o saguão · terminal hall
- a faixa · banner
- irrestrito · unrestricted
- o desembarque · arrival, disembarking
- que barato · how cool (1970s slang)
- bicho · man, dude (1970s slang)
- a gíria · slang
- a vitrola · record player
- a tachinha · thumbtack
- a loja de ferragens · hardware store
- a tabuada · times tables
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No dia em que Paulo voltou, o do Galeão parecia estádio em final de campeonato. Havia pedindo anistia ampla, geral e mães com retratos no peito, um grupo de estudantes cantando músicas que, um ano antes, dariam cadeia, e fotógrafos subindo nas cadeiras para pegar o melhor ângulo do Lúcia ficou num canto, perto da coluna, segurando um cartaz que tinha feito à mão na noite anterior e que agora lhe parecia ridículo: PAULINHO, em letras azuis. Ninguém o chamava assim havia nove anos. Talvez nem ele.
Paulo saíra do Brasil em setembro de 1970, numa madrugada, com uma mochila e um passaporte que não era dele. Foi para Santiago. Em 1973, quando os tanques chegaram ao palácio de lá, fugiu de novo, desta vez para Estocolmo, que nas cartas descrevia como uma cidade limpa, educada e escura às três da tarde. As cartas chegavam abertas e coladas de volta, com meses de atraso. A última dizia que ele tinha se casado com uma sueca chamada Ingrid e que a filha deles, Ana, já tinha seis anos e “falava português como uma vaca espanhola”, expressão que Lúcia levou uma semana para entender que era sueca.
Quando ele apareceu na porta de vidro, Lúcia não o reconheceu. Estava mais gordo, de barba, com um casaco grosso demais para o mês de setembro no Rio. Foi ele que a viu primeiro, por causa do cartaz. Atravessou a multidão, abraçou-a com força e disse, ao pé do ouvido: “Que você tá igualzinha.” Lúcia riu e chorou ao mesmo tempo. Ninguém mais dizia Ninguém mais dizia “que daquele jeito. O irmão tinha voltado falando a de 1970, conservada no gelo, como um mamute.
No táxi para Botafogo, Paulo não parava de falar. Comentava os prédios novos, o viaduto, o preço da corrida em cruzeiros, que achou um escândalo. Perguntou por amigos, e Lúcia foi respondendo, um por um, o que pôde: um que virou publicitário, um que se casou com a filha de um coronel, dois de quem ninguém nunca mais teve notícia. Paulo ficou calado. Ingrid segurava a mão dele no banco de trás. Ana, encostada na janela, olhava para o mar e perguntava ao pai, em sueco, se aquilo era mesmo de verdade.
A mãe deles tinha morrido em 1977, de um câncer que demorou dois anos. Paulo soube por telegrama, em Estocolmo, três semanas depois do enterro. Lúcia nunca tinha tido coragem de mexer no quarto dele. Estava tudo lá, no apartamento da Rua Real Grandeza: a os discos, os livros de capa vermelha escondidos atrás de uma enciclopédia, a cama estreita de solteiro. E, na parede, preso com uma um calendário de 1970 de uma loja de aberto no mês de setembro. A mãe, durante sete anos, tirava o pó dele toda semana e não deixava ninguém virar a folha.
Paulo ficou muito tempo parado diante do calendário. Lúcia esperou que ele chorasse, ou que dissesse alguma coisa sobre a mãe, sobre o exílio, sobre o tempo. Ele estendeu a mão como quem vai arrancar a folha e parou no meio do gesto. Foi Ana quem falou primeiro, num português cheio de pedras: “Pai, por que a vovó deixou o mês parado?” Paulo abriu a boca e não encontrou a palavra. Olhou para a irmã, pedindo socorro, como fazia quando eram crianças e ele esquecia a
“Porque ela estava esperando”, disse Lúcia. “Aqui a gente tem uma palavra para isso. Depois eu te ensino.” Ana pensou um pouco e pediu se podia ficar com o calendário. Paulo tirou a com cuidado, enrolou a folha de setembro e entregou à filha, que a levou para Estocolmo no fim do ano, quando eles decidiram, para surpresa de todos e de ninguém, que não iam ficar. Diz Lúcia que, até hoje, numa parede de um apartamento escuro às três da tarde, há um mês de 1970 que continua esperando, mas agora sabe por quê.
Comprehension check
0/4 answered
1. What surprised Lúcia about the way Paulo talked?
2. Where did Paulo live before Stockholm?
3. What had their mother done with the calendar?
4. What happened at the end of the year?