Short story
O telefone de São Cristóvão
In 1877, the messenger who has run errands for the imperial palace in Rio for thirty years is put on the other end of the Emperor's new telephone.
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Words to know (11)
- o Paço · palace (royal residence)
- o mordomo · steward, butler
- o atalho · shortcut
- o terço · rosary
- a cocheira · coach house, stable
- o fone · receiver, earpiece
- o chiado · hiss, crackle
- o estalo · click, crack
- emudecer · to go silent
- sem fôlego · out of breath
- restabelecer · to restore
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Durante trinta anos, Januário Benedito dos Santos foi o fio que ligava o de São Cristóvão ao resto do Império. Levava bilhetes do Imperador ao Instituto Histórico, cartas da Imperatriz às damas da Tijuca, recados do ao padeiro da Rua da Ajuda, encomendas de livros ao livreiro francês da Rua do Ouvidor. Ia a pé, depois a cavalo, depois de bonde, e conhecia cada entre a Quinta da Boa Vista e o centro da cidade como um padre conhece o Nascera escravo da Nação, nas do próprio palácio, e fora libertado em 1871, com uma lei e um aperto de mão. Continuou correndo. Era o que sabia fazer.
Em 1877, chegou dos Estados Unidos uma caixa de madeira cheia de fios. Todos no sabiam a história: no ano anterior, numa exposição em Filadélfia, Sua Majestade encostara ao ouvido um aparelho inventado por um professor escocês de surdos e exclamara, diante de uma multidão de americanos, que aquilo falava. Agora queria uma linha só dele, do gabinete de São Cristóvão até a casa do ministro, no centro. Os técnicos esticaram o fio pelos postes do telégrafo durante uma semana. Januário acompanhou tudo de longe, com a desconfiança de um cocheiro diante do primeiro bonde elétrico.
No dia da inauguração, o chamou-o. Alguém precisava ficar do outro lado, na casa do ministro, para atender o Imperador. O ministro estava em Petrópolis; o secretário tinha medo de choque; e Januário, disse o conhecia a voz de Sua Majestade melhor do que ninguém. Era verdade. Era uma voz fina, quase aguda, que contrastava com a barba de patriarca e que Januário ouvira mil vezes dizer “leve isto depressa”. Foi para o centro de bonde, sentou-se diante do aparelho de madeira e esperou, de chapéu no joelho.
Quando a campainha tocou, ele pulou da cadeira. Pegou o com as duas mãos, como quem pega uma galinha, e encostou-o ao ouvido. Ouviu primeiro um de mar, depois um depois, muito longe e muito perto ao mesmo tempo, a voz fina que conhecia: “Januário? É você?” Ele quis responder e não conseguiu. Estava diante de um milagre e de uma demissão. Aquela voz, que precisara dele durante trinta anos para chegar a qualquer lugar, chegava agora sozinha, sem pernas, sem bonde, sem ele.
“Januário, está me ouvindo?”, repetiu o Imperador. E então, antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, a linha fez um barulho de panela e Os técnicos, do lado de lá, correram aos postes. Januário esperou cinco minutos diante do aparelho mudo. Depois pôs o chapéu, saiu para a rua e começou a correr. Correu pela Rua do Ouvidor, pelo Campo de Santana, pelo Mangue, pela Rua de São Cristóvão, com a velha agilidade dos tempos em que tinha vinte anos, e entrou no gabinete imperial suado e sem quarenta minutos depois, no momento exato em que os técnicos anunciavam que a linha estava
“Majestade”, disse ele, de chapéu na mão, “estou ouvindo, sim senhor.” Dom Pedro olhou para ele, olhou para o aparelho e riu como raramente ria, um riso de menino que contagiou os técnicos americanos, o e até o retrato da Imperatriz na parede. Disse que tinha visto naquele dia duas maravilhas modernas, e que não sabia qual das duas era mais rápida. Na semana seguinte, nomeou Januário encarregado do telefone do com salário dobrado e o direito de não correr mais.
Januário atendeu aquele aparelho durante doze anos. Aprendeu a dizer “pois não” para a madeira com a mesma reverência com que o dizia para as pessoas. Na madrugada de 17 de novembro de 1889, quando a família imperial foi embarcada às pressas para o exílio, ele ficou no gabinete vazio, sem saber para onde ir. Pouco antes do amanhecer, o telefone tocou. Januário atendeu. Do outro lado, não havia ninguém, só o de mar. Ele esperou um pouco, endireitou o corpo e disse, com toda a clareza: “Pois não, Majestade. Pode deixar, que eu levo.”
Comprehension check
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1. What had Januário's job been for thirty years?
2. Why did Januário feel he was facing "um milagre e uma demissão"?
3. What did Januário do when the line went dead?
4. What happened on the morning of November 17, 1889?