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Short story

Receita de bolo

In São Paulo in 1973, a newspaper's food writer finds her recipes printed in the gaps left by the censors, and readers write in to say the cakes don't work.

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Words to know (11)
  • a culinária · cooking
  • a redação · newsroom
  • o rodeio · roundabout way of saying something
  • o fubá · cornmeal
  • murchar · to sink, collapse (of a cake)
  • o pão de ló · sponge cake
  • a gráfica · print shop
  • o ponto de neve · stiff peaks (beaten egg whites)
  • talhar · to curdle
  • o recorte · newspaper clipping
  • o recado · message

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Dona Odete Ramalho escrevia a coluna de do Diário Paulistano desde 1958 e tinha, em quinze anos, uma única reclamação no arquivo: uma senhora da Mooca que achou o pudim doce demais. Era uma questão de honra. Testava cada receita três vezes na cozinha de casa, no Paraíso, pesava a farinha numa balança de farmácia e só mandava o texto para a quando o marido, que detestava doce, admitia comer um segundo pedaço.

Em 1973, as receitas de Dona Odete começaram a aparecer em lugares estranhos. Não mais na página feminina das quartas-feiras, entre um conselho de beleza e um molde de vestido, mas na primeira página, no meio da seção de política, às vezes no lugar do editorial. Ela não entendia. Telefonou para o secretário de um rapaz chamado Vasconcelos, que lhe explicou, com muitos que havia um senhor da Polícia Federal sentado todas as noites na que esse senhor cortava as matérias que não lhe agradavam, que o jornal não podia deixar buracos em branco, e que as receitas dela tinham o tamanho certo. “A senhora está prestando um serviço à pátria”, disse ele. Ela não soube se devia agradecer.

Duas semanas depois começaram as cartas. Uma leitora de Campinas escreveu que o bolo de da primeira página no forno. Um engenheiro aposentado do Brooklin tentou o pão de da página três e quase pôs fogo na cozinha. Uma professora de Santos perguntava, com educação, se “dezessete ovos e um quilo de sal” não seria um erro de revisão. Dona Odete leu as cartas com as mãos tremendo. Nunca tinha posto sal em pão de Nunca tinha usado dezessete ovos para nada.

Foi à pela primeira vez na vida, de chapéu e luvas, e exigiu explicações. Vasconcelos levou-a para o fundo do arquivo, fechou a porta e confessou. Eram eles, os jornalistas, que alteravam as receitas antes de mandá-las para a Faziam de propósito, para que o leitor, ao tentar o bolo e ver o desastre, entendesse que naquele espaço deveria estar outra coisa. “O censor não sabe cozinhar”, disse ele. “Mas a sua leitora sabe. Um bolo que não cresce é a única notícia que ainda passa.”

Dona Odete ficou um minuto em silêncio, olhando as pilhas de jornais velhos. Depois tirou as luvas, abriu a bolsa e pegou um bloco. “Se é para errar”, disse, “vamos errar direito. Vocês erram como homens: põem sal onde não cabe e ninguém aprende nada. Deixe comigo.” A partir daquela semana, era ela mesma quem escrevia as receitas para os buracos. Eram textos de uma precisão perfeita, com uma única instrução absurda escondida no meio, como um caroço numa azeitona: “bata as claras até o de silêncio”, “asse em forno brando por vinte e um anos”, “junte a liberdade aos poucos, para não

O censor, um senhor gordo e triste chamado Aristides, lia tudo com uma régua na mão e um lápis vermelho atrás da orelha. Não cortava as receitas, porque receita não era assunto do Estado. Mas uma noite, intrigado com a frase “deixe a massa descansar até que o general se aposente”, levou o para casa e o mostrou à mulher, que cozinhava havia trinta anos. Ela leu, riu baixinho e devolveu o papel. “Aristides, isso aqui não é receita. É Ele guardou o no bolso e nunca o entregou aos superiores. Dizem que o fez por preguiça. Dona Odete sempre preferiu acreditar que a mulher dele gostou do bolo.

Quando a censura saiu da anos depois, Dona Odete publicou na página feminina das quartas-feiras um bolo de laranja simples, honesto, testado três vezes, que crescia direitinho. Recebeu nove cartas de protesto. Os leitores tinham se acostumado a procurar a notícia dentro da massa, e acharam aquele bolo, que dava certo, muito suspeito. A mais curta vinha da Mooca, da mesma senhora do pudim, agora viúva: “Dona Odete, o que foi que a senhora não pôde dizer desta vez?”

Comprehension check

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1. Why did the newspaper put Dona Odete's recipes on the front page?

2. Why did the journalists change the recipes?

3. What was different about the recipes Dona Odete wrote herself?

4. What happened when censorship ended and she published a normal recipe?