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Short story

O vaqueiro que vendeu a sombra

Told in the rhyming manner of a cordel poet, the tale of a cowboy from the Cariri who sells his shadow to the Devil in a drought and then has to buy it back.

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Words to know (12)
  • o umbu · umbu (a small fruit of the sertão)
  • o açude · reservoir, dammed pond
  • o gibão · leather jacket of a sertão cowboy
  • o Cão · the Devil (sertão euphemism)
  • a cacimba · hand-dug well
  • à toa · trifling, of no importance
  • a prestação · installment
  • benzer-se · to cross oneself
  • a prumo · straight up, vertically
  • a braça · fathom (old measure, about 2 m)
  • espernear · to kick and scream
  • a batina · cassock

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Peço licença ao leitor, à Virgem e ao Padre Cícero para contar uma história que não é minha nem é sua, mas é do sertão inteiro, que a guarda debaixo da língua como quem guarda um caroço de Quem não acreditar, que vá ao Cariri e pergunte; quem acreditar demais, que tire o chapéu e espere o fim, porque história de vaqueiro tem curva, tem porteira e tem boi que não volta. Aconteceu no ano da seca grande, quando o céu ficou de ferro, o virou chão rachado e até o mandacaru pedia esmola.

Chico Valente era vaqueiro de fama, de de couro e coragem de sobra, que derrubava boi pelo rabo e não pedia ajuda nem a Deus nem ao Diabo. Mas a seca, que não respeita valentia, levou-lhe primeiro o gado, depois o milho, depois a paciência. Numa tarde de fogo, sentado debaixo de um juazeiro sem folha, Chico disse em voz alta que vendia qualquer coisa por um barril de água. Não devia ter dito. No sertão as palavras têm ouvido, e quem ouviu foi o

Chegou montado num cavalo preto que não suava, de terno branco e anel de ouro, falando manso como vendedor de feira. “Água eu tenho, seu Chico, água fresca de funda. Mas não dou de graça, que eu também tenho meu comércio. Quero só uma coisinha à que o senhor nem vai sentir falta: a sua sombra.” Chico olhou para o chão, onde a sombra dele estava deitada, magra e preta como ele, e pensou que sombra não bebe, não come e não paga imposto. Fechou negócio com um aperto de mão que lhe queimou a palma.

Teve água, é verdade, e bebeu até a barriga parecer tambor. Mas no dia seguinte começou o castigo, e castigo de não vem de uma vez: vem em Sem sombra, o sol do meio-dia caía-lhe em cima sem ter onde se esconder, e Chico ardia feito brasa de fogão. As vacas que restavam não o seguiam mais, porque bicho não confia em homem que não deixa marca no chão. As mulheres da vila quando ele passava. O padre recusou-lhe a missa, dizendo que homem sem sombra era homem sem alma, e alma não se empresta, nem a juros, nem a prazo.

Foi então que Chico Valente, que de bobo não tinha nada, pensou e repensou, de noite e de madrugada. Mandou chamar o e disse que queria a sombra de volta, pagando o justo, nem um tostão a mais, nem um a menos. O Diabo, que adora uma conta bem feita, propôs vender a sombra por palmo: tanto por palmo de comprimento, medida na hora da entrega, com fita e testemunha. Chico aceitou, cuspiu na mão e marcou a hora: meio-dia em ponto, no largo da igreja de Juazeiro.

Ora, quem conhece o sertão sabe o que o sendo das profundezas, esqueceu: que ao meio-dia, naquelas bandas, o sol fica a em cima da cabeça, e a sombra de um homem encolhe até caber debaixo do chapéu. Na hora marcada, com o padre de testemunha e meia cidade espiando das janelas, o Diabo estendeu a fita. A sombra de Chico media um palmo e meio, se tanto. Chico pagou dois vinténs, recebeu o troco e a sombra de volta, e foi-se embora assobiando.

Às quatro da tarde, a sombra de Chico Valente já media três e se estendia pelo largo inteiro, comprida como uma estrada, e o que ficara contando o dinheiro na calçada da igreja, percebeu que tinha vendido por vintém uma coisa que, ao entardecer, valia uma fazenda. Gritou, quis desfazer o negócio. Mas negócio fechado com testemunha de não se desfaz nem no inferno, e o Diabo voltou para casa de cabeça baixa e rabo entre as pernas, jurando nunca mais comprar nada no sertão.

E a chuva? Veio no ano seguinte, como vem sempre, quando ninguém mais espera. Chico Valente viveu muitos anos e morreu velho, de morte morrida, numa rede armada na varanda, ao fim da tarde, que era a hora em que a sombra dele ficava maior. A moral, quem quiser, que tire: no sertão até o Diabo perde, desde que o pobre saiba a hora certa de medir. E quem contar diferente, que conte, que eu não brigo; mas foi assim que me contaram, e assim eu conto, e assim termino.

Comprehension check

0/4 answered

1. What did the Devil ask for in exchange for water?

2. Which of these was a consequence of having no shadow?

3. Why did Chico choose noon for buying his shadow back?

4. Why couldn't the Devil undo the deal?