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Short story

Biografia não autorizada

Extracts from a rigorous, independent biography of Ezequiel Moura Tavares, a civil servant from Natal, by a biographer who knows him remarkably well.

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Words to know (12)
  • o biógrafo · biographer
  • o biografado · subject of a biography
  • o boletim · report card
  • a carteira · school desk
  • a normalista · woman trained as an elementary school teacher
  • manifestar-se · to comment, make a statement
  • engavetar · to shelve (lit. put in a drawer)
  • o marco · landmark, milestone
  • a lacuna · gap
  • o paradeiro · whereabouts
  • o consórcio · pooled savings scheme for buying a car or house
  • o convívio · living together, coexistence

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Ezequiel Moura Tavares nasceu em Natal, no bairro da Ribeira, numa madrugada de junho de 1951, sob uma chuva que os parentes mais velhos, ouvidos por este descrevem como “fora do comum”, embora nenhum deles estivesse vivo na época, e que os registros do serviço de meteorologia, consultados com o mesmo rigor, não registram. A discrepância não deve surpreender o leitor. Há homens cujo nascimento a ciência ainda não está preparada para medir.

Desde cedo, o pequeno Ezequiel revelou uma inteligência que os professores do grupo escolar não souberam reconhecer. Seus reproduzidos em anexo apenas em parte, por razões de espaço, apresentam notas modestas em matemática, português, ciências e comportamento. Este após cuidadoso exame, atribui esses resultados à incapacidade da escola pública da época de lidar com mentes que pensavam em outra velocidade, e não, como sugeriu uma ex-colega entrevistada, ao fato de o menino passar as aulas desenhando aviões na

Em 1974, Ezequiel casou-se com Marta Lúcia Barreto, com quem viveu dezenove anos de harmonia quase ininterrupta. Procurada por este Dona Marta não quis se o que se respeita, e mandou dizer, por intermédio do advogado, que “ele sabe muito bem por quê”, o que se respeita menos. O divórcio, em 1993, ocorreu por razões que a discrição impede de detalhar e que, de qualquer forma, foram muito exageradas pelos vizinhos da Rua Mossoró, cuja hostilidade com o datava da questão do muro, abordada no capítulo sete.

Profissionalmente, Ezequiel foi, durante trinta e um anos, funcionário da Secretaria Estadual da Fazenda, onde ocupou o cargo de assistente administrativo nível três. A modéstia do título não deve enganar. Testemunhas daquele período, cujos nomes este preserva a pedido delas, ou pelo menos sem pedido em contrário, confirmam que muitas decisões importantes passaram pela mesa dele, ainda que não tenham parado ali. Seu projeto de reorganização dos arquivos, apresentado em 1988 e em 1988, é até hoje considerado um por quem o leu, que foi ele mesmo.

O leitor talvez estranhe a ausência, nestas páginas, de depoimentos dos dois filhos do Ambos foram procurados. O mais velho, que mora em São Paulo, respondeu por mensagem com um emoji que este depois de alguma pesquisa, preferiu não interpretar. A mais nova, Carolina, pediu que o pai, se estivesse lendo aquilo, ligasse para ela de vez em quando, em vez de escrever livros. A frase é registrada aqui por fidelidade documental, embora pareça dirigida a outra pessoa.

Uma palavra sobre o método. Este trabalho baseou-se em mais de duzentas horas de entrevistas com o realizadas em diversas ocasiões, em geral pela manhã, entre o café e o banho, no apartamento que ele ocupa em Ponta Negra desde 2009. O agradece a disponibilidade irrestrita do entrevistado, que nunca recusou um encontro, nunca chegou atrasado e jamais se negou a responder a uma pergunta, nem mesmo àquelas que ele próprio, em ocasiões anteriores, tinha considerado impertinentes.

Restam, naturalmente, Não foi possível esclarecer, por exemplo, o que aconteceu em Mossoró em julho de 1979, nem a quem pertencia o carro vermelho, nem o do dinheiro do O quando questionado, alegou não se lembrar, e este que tem pelo a mais alta consideração e também, por razões práticas, o mesmo endereço, preferiu não insistir. A verdade histórica tem os seus direitos, mas o também.

Por fim, este deseja registrar que a presente obra não foi autorizada pelo o que garante a sua independência. Na verdade, quando o manuscrito lhe foi mostrado, numa terça-feira de manhã, diante do espelho do banheiro, Ezequiel o leu inteiro, de pé, emocionado, e declarou que se tratava de um retrato justo, embora um pouco severo. Pediu apenas que se acrescentasse, na última página, uma frase: “Carolina, eu ligo no domingo.” Este fiel ao seu compromisso com os fatos, só a registrará como verdadeira depois de poder confirmá-la. Domingo é depois de amanhã.

Comprehension check

0/4 answered

1. What do the weather records say about the storm on the night of his birth?

2. How did a former classmate explain his poor marks?

3. What did his daughter Carolina ask for?

4. What gives away that the biographer and his subject are the same man?