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Short story

O rei do trocadilho

At a bar in Santa Teresa, an eighty-one-year-old champion of puns faces a young internet comedian with four thousand jokes in a notebook.

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Words to know (12)
  • o trocadilho · pun
  • o guardanapo · napkin
  • o gemido · groan
  • a bula · package leaflet (of a medicine)
  • o extrato · bank statement; also tomato paste (the pun)
  • de plantão · on duty (pun on planta, plant)
  • a molécula · molecule (pun on pé de moleque, peanut brittle)
  • volátil · volatile (sounds like vou lá, tio: I'm going there, uncle)
  • o placar · score
  • desnorteado · bewildered
  • o paralelepípedo · cobblestone
  • achar graça · to find something funny (graça: charm, humor; also a woman's name)

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Todo último sábado do mês, no Bar do Arlindo, em Santa Teresa, acontece o Campeonato Carioca de que não tem nada de carioca além do bar e nada de campeonato além da vaidade dos participantes. O regulamento cabe num cada competidor diz um por rodada, e o público julga com Um é bom. Um acompanhado de um tapa na mesa é ótimo. Um silêncio é a morte. O prêmio é uma garrafa de cachaça de Paraty, que o vencedor tem a obrigação moral de dividir com os derrotados, e o título, que não vale nada e que todos desejam com uma intensidade constrangedora.

Há dezenove anos o título pertence a Seu Benedito Lisboa, oitenta e um anos, ex-revisor de de remédio, que diz ter aprendido a ler as palavras pelo avesso de tanto procurar efeitos colaterais. Seu Bené tem um repertório que os frequentadores descrevem como “inesgotável e imperdoável”. Foi dele, em 2009, o que encerrou a final daquele ano e que ainda hoje se repete nas mesas do bairro: perguntado por que o tomate tinha ido ao banco, respondeu, sem levantar os olhos do copo, que tinha ido tirar O bar inteiro gemeu durante um minuto.

Naquele sábado de outubro, porém, havia um desafiante sério. Kauã Ferreira, vinte e três anos, humorista de internet, três milhões de seguidores, chegou com uma câmera, um assistente e um caderno em que, segundo ele mesmo, havia mais de quatro mil catalogados por tema. O bar o recebeu com a desconfiança que se reserva a quem vem de Ipanema, e Seu Bené, com um aceno de cabeça de rei que já viu muitos pretendentes.

As primeiras rodadas foram equilibradas. Kauã abriu perguntando por que a plantinha não tinha sido atendida no hospital, e ele mesmo respondeu: porque só havia médico de Seu Bené devolveu que o doce preferido do átomo era o pé de com tapa. Kauã contra-atacou com a vaca que foi ao espaço procurar a Via Láctea; Seu Bené, com o contrário de que é, como todo carioca deveria saber, “vem cá, sobrinho”. Às onze da noite, o de estava empatado, e o Arlindo, que fazia as vezes de juiz, anunciou a rodada final, de tema livre.

Kauã foi primeiro. Consultou o caderno, ensaiou baixinho e disparou uma sequência de cinco encadeados, sobre política, futebol e inflação, tão rápidos e tão bem amarrados que o público, gemeu, bateu na mesa e, no fim, aplaudiu, coisa que não se fazia no Bar do Arlindo desde a Copa de 2002. O assistente filmava tudo. Era evidente que aquilo ia viralizar. Era evidente também que aquilo tinha sido escrito em casa, com calma, por alguém que entendia muito de palavras e pouco de bar.

Seu Bené demorou a responder. Bebeu um gole de cachaça, olhou para a porta, que dava para a rua de por onde antigamente passava o bonde, e disse que não ia fazer naquela noite, que ia só contar uma coisa. Contou que tinha sido casado por cinquenta anos com uma mulher chamada que era ela quem o trazia ao bar todo último sábado do mês, porque achava os dele horríveis e queria ver a cara das pessoas. Que ela tinha morrido fazia dez anos. “E desde que eu perdi a disse, “eu venho aqui todo mês para ver se ainda acho em alguma coisa.”

Ninguém gemeu. O bar ficou num silêncio tão completo que se ouvia o motor da geladeira. Pelo regulamento, era a morte. Mas Kauã, que entendia de palavras mais do que parecia, fechou o caderno devagar, fez sinal para o assistente parar de filmar e foi o primeiro a bater na mesa. Um tapa só, seco. Depois outro. Depois o bar inteiro, num ritmo que não era de nem de aplauso, mas de alguma coisa entre os dois, para a qual o regulamento não tinha previsto nome.

O Arlindo declarou empate, pela primeira vez na história do campeonato. A garrafa de Paraty foi dividida entre todos, como manda a tradição, e Kauã ficou até o bar fechar, ouvindo Seu Bené. No mês seguinte, voltou sem câmera e sem caderno. Diz que está aprendendo. Seu Bené diz que o rapaz tem futuro, mas que ainda faz com a cabeça, e que bom se faz com outra coisa, que ele aponta no peito sem dizer o nome. Os frequentadores juram que, ao fazer o gesto, ele sorri, como quem acaba de achar em alguma coisa.

Comprehension check

0/4 answered

1. How does the audience judge each pun?

2. Why does Seu Bené say he learned to read words "inside out"?

3. What was obvious about Kauã's final sequence?

4. Why did Seu Bené's last words silence the bar?