Deep End
← Mastery stories

Short story

Obrigada

In his last week before retiring, an old registrar in Recife meets the woman whose unusual first name he allowed forty years earlier.

Tap a dotted word for its meaning.

Words to know (12)
  • o prenome · first name (legal term)
  • suscetível · liable, likely
  • o portador · bearer
  • recém-nascido · newborn
  • o meio-termo · compromise, middle ground
  • a covardia · cowardice
  • o jaleco · white coat (of a doctor or nurse)
  • disponha · don't mention it, at your service (formal reply to thanks)
  • grogue · groggy
  • o requerimento · application form
  • a averbação · annotation added to an official record
  • carimbar · to stamp

Select any text to highlight it, or a word to translate it or save it to your flashcards.

Seu Expedito Lins de Albuquerque foi oficial do Registro Civil das Pessoas Naturais do bairro da Encruzilhada, no Recife, por quarenta e um anos, e nesse tempo recusou, segundo um caderno de capa preta que guardava na gaveta, trezentos e doze nomes. Recusou Lampião Virgulino da Silva, recusou Coca-Cola Ferreira, recusou Pirâmide, Faraó e, num mês de Copa do Mundo, dezessete variações de Romário. A lei lhe dava esse poder: o oficial não registrará de expor ao ridículo os seus Seu Expedito o exercia com a gravidade de um porteiro do céu.

Mas houve um que ele não recusou, e que lhe tirou o sono por quarenta anos. Foi numa manhã de março de 1984. Um homem de Garanhuns, magro, com o chapéu na mão e os olhos vermelhos de quem não dormia, chegou ao balcão com uma no colo e uma única palavra na boca. A mulher dele tinha perdido três filhos antes daquele. A menina tinha nascido de sete meses e, contra a opinião de dois médicos, sobrevivido. Ele queria registrá-la como Obrigado.

Seu Expedito argumentou. Explicou a lei, o ridículo, a escola, os colegas, a vida inteira de uma moça com aquele nome. O homem ouviu tudo com o chapéu na mão e, no fim, disse apenas que não tinha outra palavra para Deus e que não ia escolher uma pior. Ficaram nisso quase uma hora, com a fila crescendo atrás. Foi então que Seu Expedito, que além de oficial era gramático amador, teve uma ideia que lhe pareceu, na hora, um e, depois, uma “Pelo menos ponha no feminino, homem. Mulher diz obrigada.” O homem pensou, concordou, agradeceu e saiu do cartório com uma certidão em nome de Obrigada Maria dos Santos.

Quarenta anos depois, na última semana antes da aposentadoria, Seu Expedito viu entrar no cartório uma mulher de branco, com o crachá de um hospital público no peito, que pediu para falar com ele pessoalmente. Ele soube quem era antes que ela dissesse o nome. Havia na cara dela alguma coisa do homem de Garanhuns, a mesma teimosia quieta. Ela se sentou, tirou da bolsa uma certidão de nascimento amarelada e disse que tinha vindo mudar de nome, já que agora a lei permitia isso, uma vez na vida, a qualquer maior de idade, sem precisar explicar por quê.

Seu Expedito sentiu que era o fim justo de uma carreira. Pediu desculpas antes de qualquer coisa. Disse que devia ter recusado, que tinha pensado nela muitas vezes, nas brincadeiras da escola, nas chamadas dos professores, nos namorados. Ela riu. Disse que, sim, tinha ouvido “de nada” todos os dias da infância, que um menino da quinta série tinha passado um ano inteiro respondendo à chamada no lugar dela com um e que ela tinha se casado com ele, aliás, por pura vingança, e que estavam juntos até hoje.

Depois ficou séria. Contou que era enfermeira de UTI havia dezoito anos. Que, quando os pacientes acordavam, perguntavam o nome dela, e ela dizia, e eles, ainda meio achavam que ela estava agradecendo, e agradeciam de volta. Que muitos tinham morrido com o nome dela na boca, e ela tinha chegado à conclusão de que havia jeitos piores de morrer. Que o pai tinha morrido no ano anterior, em Garanhuns, e que, no fim, já sem memória para quase nada, ainda a chamava pelo nome e sorria, como quem cumpre uma promessa.

“Então a senhora não quer mudar”, disse Seu Expedito, confuso. Ela disse que queria, sim. Não queria tirar nada. Queria acrescentar. Tirou da bolsa o já preenchido, com letra de enfermeira, que é a pior letra do mundo depois da de médico. No campo do novo estava escrito: Obrigada Expedita. Ele leu duas vezes. Disse que não podia, que era conflito de interesses, que era vaidade, que a Corregedoria ia achar estranho. Ela respondeu que a Corregedoria não precisava achar nada, porque a lei não pedia justificativa.

Ele registrou. Fez a com a caneta-tinteiro que usava só para casamentos, assinou e entregou a certidão nova sem conseguir olhar para ela. A mulher guardou o papel na bolsa, levantou-se, apertou a mão dele e disse, olhando-o nos olhos: “Obrigada.” Seu Expedito, que durante quarenta e um anos tinha sabido o nome de todo mundo, ficou um bom tempo parado atrás do balcão, sem saber se ela tinha se apresentado ou agradecido, e concluiu, já perto da hora de fechar, que no caso dela não havia diferença.

Comprehension check

0/4 answered

1. What power did the law give Seu Expedito?

2. Why did the father want to call his daughter "Obrigado"?

3. What compromise did Seu Expedito suggest in 1984?

4. What change did the woman ask for forty years later?