Short story
Destinatário errado
An analyst in Florianópolis starts receiving weekly e-mails from a stranger meant for another woman with her name.
Tap a dotted word for its meaning.
Words to know (11)
- o trapiche · small wooden pier, jetty
- a tainha · mullet (fish caught in winter off Santa Catarina)
- o engano · mistake
- arquivar · to file, archive
- a maré · tide
- o rancho de canoas · boathouse for fishing canoes
- o boto · dolphin
- pendurar · to hang
- a rede · hammock
- a pilastra · pillar
- a chatice · bore, tedious thing
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Assunto: (sem assunto). De: Heitor. Para: Ana Clara. Ana, eu sei que tu disse que não era para escrever, mas o mar hoje amanheceu daquele jeito que tu gostava, liso como um prato, e eu fui até o e fiquei lá feito um bobo. Não precisa responder. A chegou cedo este ano. Teu pai mandou lembranças, mesmo sem saber que eu ia escrever. H.
Ana Clara Souza, trinta e quatro anos, analista de sistemas, moradora de um apartamento sem vista na Trindade, leu o e-mail três vezes antes de entender que não era para ela. Não conhecia nenhum Heitor, nunca tinha namorado ninguém que soubesse o que era uma e o pai dela morava em Chapecó e não mandava lembranças nem quando sabia. Havia outra Ana Clara Souza no mundo, talvez muitas, e uma delas tinha um endereço de e-mail que diferia do seu por um ponto. Ela deveria ter respondido avisando do Não respondeu. o e-mail numa pasta que criou para isso e que chamou, sem pensar muito, de “Mar”.
Os e-mails continuaram, um por semana, sempre às quintas, sempre curtos. Heitor contava da da reforma do de canoas, de uma tia que tinha visto um na baía, da festa do Divino na igreja da praça. Nunca pedia nada. Às vezes errava a concordância e às vezes acertava uma imagem que ela levava o dia inteiro na cabeça: “a lua ontem estava tão perto que dava para a nela”. Ana Clara começou a esperar as quintas. Começou a passar por Santo Antônio de Lisboa nos fins de semana, de carro, devagar, sem saber o que procurava.
No quarto mês, ela respondeu. Sabia que era errado e escreveu mesmo assim, uma frase só: “Você descreve o mar como ninguém.” Passou a noite arrependida. Na quinta seguinte, veio a resposta: “Que bom que tu ainda lê.” Depois disso, sem que ela soubesse direito como, os dois estavam conversando. Ela tomava cuidado para não dizer nada que a outra Ana Clara não pudesse ter dito, falava pouco de si, deixava que ele pensasse que ela estava longe, em algum lugar frio. Não era mentira, de certa forma. A Trindade, sem ele, era um lugar frio.
Em outubro, Heitor escreveu que ia expor as suas fotografias no Mercado Público, no Centro, num sábado. Não convidou ninguém; só deu a data. Ana Clara foi. Disse a si mesma que ia só para ver as fotografias, e viu: o ao amanhecer, a baía lisa como um prato, uma lua enorme sobre as canoas. E viu Heitor, encostado numa mais magro do que ela tinha imaginado, olhando para a porta como quem já sabe quem vai entrar.
Ela se apresentou. Disse o nome inteiro, Ana Clara Souza, e esperou a decepção. Ele sorriu. Disse que sabia. Que tinha percebido no primeiro e-mail dela, aquele da frase só. Ela perguntou como, se tinha tomado tanto cuidado. “A Ana nunca disse você na vida”, ele respondeu. “Ela é daqui. Ela ia dizer: tu descreve o mar como ninguém. E nem ia dizer isso, aliás, porque achava as minhas descrições uma
Ana Clara ficou vermelha, depois riu, depois quis saber por que ele tinha continuado a escrever, se sabia que era para uma estranha. Heitor demorou a responder. Disse que a outra Ana tinha ido para a Alemanha havia dois anos e que os e-mails, no começo, eram mesmo para ela, um jeito de ir se despedindo devagar. Mas que, quando alguém do outro lado começou a responder, e a responder com um pronome que não era o dela, ele passou a escrever para aquele pronome. “Eu estava escrevendo para você”, disse, e ela reparou que ele tinha trocado o tu, e que isso lhe custara um esforço visível, como quem fala uma língua estrangeira por gentileza.
Eles estão juntos há um ano. Ela continua dizendo você, ele continua dizendo tu, e os dois brigam por isso com uma felicidade que os amigos acham irritante. O e-mail ainda chega às quintas, por hábito, mesmo quando os dois estão na mesma casa. A pasta continua se chamando “Mar”. E a outra Ana Clara, em Berlim, recebeu no Natal um cartão com uma fotografia do e duas assinaturas, e respondeu, de um endereço com um ponto a mais, que eles podiam ficar com o mar, que ela já tinha arrumado outro.
Comprehension check
0/4 answered
1. Why did Heitor's e-mails reach this Ana Clara?
2. What did she do with the first e-mail?
3. How did Heitor know she was not his ex-girlfriend?
4. How did the other Ana Clara answer their Christmas card?