Short story
Nota do tradutor
Translating a famous American novel in Porto Alegre, Marina recognizes a sentence she has read before, in a forgotten book from Pelotas.
Tap a dotted word for its meaning.
Words to know (12)
- prezar-se · to have self-respect (que se preza: worthy of the name)
- o sebo · used bookstore
- a tiragem · print run
- a minúcia · meticulous care, detail
- o perito · expert, forensic examiner
- o minuano · the cold, dry winter wind of southern Brazil
- verter · to render, translate
- a bolsa de estudos · scholarship
- a encruzilhada · crossroads
- o ofício · craft, trade
- revezar-se · to take turns
- a dedicatória · dedication (in a book)
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Marina Schwartz traduzia havia vinte anos e tinha, como todo tradutor que se uma relação de amor e ressentimento com os autores. Amava-os enquanto eram frases; ressentia-se deles quando se tornavam e-mails. Por isso recebeu com alívio a encomenda da editora: o novo romance de Thomas Weller, americano, ganhador do Pulitzer, setenta e oito anos, conhecido por não responder a ninguém. O livro tinha quatrocentas páginas, um título intraduzível e um prazo de seis meses. Ela aceitou na hora.
Foi no terceiro capítulo que começou o desconforto. Uma mulher descia até a beira de uma lagoa para enterrar as cartas do marido morto, e Weller escrevia, em inglês, que ela as enterrava como quem planta algo que não quer ver crescer. Marina traduziu, apagou, traduziu de novo. A frase em português lhe saía pronta demais, como se não estivesse sendo inventada, mas lembrada: “Enterrou-as como quem planta aquilo que não deseja ver crescer.” Ela conhecia aquela frase. Não sabia de onde, mas conhecia, do modo como se reconhece na rua um rosto cujo nome se esqueceu.
Levou duas semanas para descobrir. A lembrança a conduziu a um da Rua Riachuelo, a uma estante de autores gaúchos esquecidos e, finalmente, a um volume de capa amarelada: “Os dias de areia”, de Alcina Prates, Pelotas, 1958, de trezentos exemplares. Marina o tinha lido aos dezenove anos, numa disciplina optativa da faculdade, e o esquecera, como se esquecem os livros que nos mudam antes de sabermos que fomos mudados. Na página quarenta e um estavam a lagoa, a mulher, as cartas. E a frase, palavra por palavra.
Nas semanas seguintes, Marina leu os dois livros lado a lado, com a de um em falsificações. Weller não tinha copiado tudo; tinha feito pior, e melhor. Transplantara a história de uma viúva da Lagoa dos Patos para um pomar da Califórnia, trocara o pelos ventos secos do Pacífico, mas deixara intactas as frases que importavam, para o inglês com uma fidelidade que ela, profissionalmente, não podia deixar de admirar. Uma pesquisa rápida confirmou o resto: em 1971, um jovem Thomas Weller passara um ano em Porto Alegre com uma de estudos. Ninguém nunca ligou os dois nomes, porque ninguém se lembrava do segundo.
O dilema tinha a forma de uma e nenhum dos caminhos era limpo. Podia denunciar o plágio, e a editora, que pagara caro pelos direitos, a substituiria por outro tradutor antes do fim da semana; o livro sairia do mesmo jeito, Alcina continuaria morta e esquecida, e Marina ficaria conhecida como a tradutora que acusou um Pulitzer sem provas que um tribunal americano levasse a sério. Podia traduzir o romance como qualquer outro, com as suas próprias palavras, e assim apagar pela segunda vez as palavras de Alcina. Ou podia fazer a única coisa que o lhe permitia e que nenhum contrato proibia.
Traduziu. Mas onde Weller tinha Alcina, Marina não traduziu Weller: devolveu Alcina, vírgula por vírgula, com as palavras exatas de 1958. Nos trechos que eram dele, fez o seu melhor trabalho, que era muito bom. O resultado foi um livro estranho, com duas vozes que se como numa conversa, e a revisora da editora chegou a comentar que certas passagens pareciam “mais antigas do que o resto, mas num bom sentido”. Marina agradeceu o elogio, que era para outra pessoa.
Faltava a nota do tradutor. A editora queria duas páginas sobre os desafios de Weller para o português. Marina escreveu uma única linha, que o editor, apressado, tomou por uma poética e manteve na abertura do volume: “Esta tradução deve tudo a Alcina Prates (1911-1979), que a escreveu primeiro.”
O livro saiu em março. Os críticos elogiaram a tradução, alguns a ponto de dizer que o romance soava melhor em português do que no original, o que era rigorosamente verdade por motivos que nenhum deles alcançou. Em abril, um professor aposentado de Pelotas escreveu à editora perguntando se aquela Alcina era a mesma da sua juventude. E em maio, numa manhã de chuva, Marina recebeu um e-mail de um endereço que a editora jurava não existir. Não tinha assunto nem assinatura. Tinha uma única palavra, em português correto: “Obrigado.” Ela passou o resto do dia tentando decidir se aquilo era gratidão, confissão ou alívio, e concluiu que, como toda boa frase, era intraduzível.
Comprehension check
0/4 answered
1. Why was Marina relieved to get this job?
2. Where did Marina find the source of the sentence?
3. Why did denouncing the plagiarism seem pointless to her?
4. What did Marina do with the passages Weller had taken?