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Short story

O discurso

A senator's speechwriter in Brasília hides a message inside the most important speech of his boss's career.

Tap a dotted word for its meaning.

Words to know (12)
  • marejado · brimming with tears
  • a CPI · parliamentary commission of inquiry
  • a tribuna · rostrum, speaker's platform
  • embargado · choked (of a voice, with emotion)
  • engarrafado · bottled
  • o Plenário · main chamber (of the Senate)
  • a rendição · surrender
  • comedido · restrained, moderate
  • decolar · to take off
  • o acróstico · acrostic
  • o réu · defendant, accused
  • descerrar · to unveil (a plaque)

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Otávio Brandão escrevia discursos para o senador Lauro Medeiros havia nove anos e tinha desenvolvido, nesse período, uma especialidade rara até mesmo em Brasília: a frase que não diz nada com tamanha convicção que todos a ouvem dizer o que esperavam ouvir. Era uma arte. A frase precisava ser concreta o bastante para parecer coragem e vaga o bastante para não ser cobrada. “Precisamos olhar para o futuro sem esquecer o passado” era o tipo de coisa que ele escrevia de olhos fechados e que o senador lia de olhos

Naquele março, o senador ia fazer o discurso da sua vida. Havia um escândalo no ar, uma em formação e uma candidatura à Presidência que dependia de ele sair da maior do que tinha entrado. Otávio recebeu as instruções numa sala sem janelas do anexo do Senado: o discurso não podia negar nada, porque negar é admitir que há o que negar; não podia admitir nada, por motivos óbvios; e precisava terminar com uma emoção que as emissoras pudessem repetir no jornal da noite.

Otávio escreveu durante três madrugadas. Na terceira, enquanto relia o rascunho, foi tomado por um impulso que mais tarde descreveria ao terapeuta como “o último reflexo de uma consciência em coma”. Reescreveu o parágrafo final de modo que cada frase começasse com uma letra precisa. Ninguém lê discursos na vertical, pensou. Era uma confissão e jogada ao mar, só que o mar era o e a garrafa ia ser transmitida ao vivo pela TV Senado.

O senador leu o discurso numa terça-feira, com a voz no ponto exato em que Otávio tinha escrito, entre parênteses, “voz O final foi assim: “Este país não cabe em promessas. Uma nação se faz de gente, não de discursos. Muitos me pediram respostas; eu trago perguntas. Enquanto houver um brasileiro com fome, nenhum de nós estará satisfeito. Não vim aqui para dividir, vim para somar. Tenho fé no povo que trabalha. Isto não é um fim: é um começo.” O aplaudiu de pé. A oposição aplaudiu sentada, o que em Brasília equivale a uma

Nos dias seguintes, o discurso foi chamado de histórico, de corajoso, de “um sopro de decência”. Um colunista comparou o senador a Rui Barbosa; outro, mais apenas a si mesmo, mais jovem. As frases viraram figurinhas de aplicativo de mensagens, estampas de camiseta, uma faixa numa manifestação em Porto Alegre e um quadro na parede de uma lanchonete em Caruaru. A não se formou. A candidatura Ninguém leu na vertical.

Quase ninguém. Duas semanas depois, chegou ao gabinete uma carta manuscrita de uma professora de português aposentada de Juazeiro do Norte, dona Francisca Alencar, que tinha ensinado a quarenta turmas de quinta série. A carta era curta. Dizia que tinha gostado muito do discurso, que o senador falava bonito, e que talvez ele quisesse saber, caso ainda não soubesse, o que estava escrito nas primeiras letras das últimas sete frases. Otávio interceptou a carta antes que ela chegasse à mesa do chefe, mas não teve coragem de destruí-la. Guardou-a na gaveta, como um guarda a prova do próprio crime.

No fim do mês, o senador o chamou à sua sala. Tinha a carta na mão; a secretária, mais leal ao chefe do que ao colega, a encontrara. Otávio esperou a demissão, a ameaça, talvez um processo. O senador o olhou por um longo momento, dobrou a carta com cuidado e disse: “Ficou muito bom, Otávio. Muito bom mesmo. Só que, no próximo, faça mais comprido. Assim ninguém chega ao fim.” E pediu um café.

O discurso está hoje gravado em letras de bronze numa placa de mármore no Salão Verde, no ano passado, já com o senador em pré-campanha. Os turistas tiram fotos diante dela todos os dias. Otávio, que continua a escrever para o senador porque não sabe fazer outra coisa e porque o salário é bom, às vezes passa por ali na hora do almoço e fica olhando a placa de cima para baixo, devagar, letra por letra, como quem visita um túmulo. Até hoje, que ele saiba, só dona Francisca e ele leram a verdade. E o senador, que, Otávio desconfia agora, leu antes de todos.

Comprehension check

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1. Why was the speech not allowed to deny anything?

2. What did Otávio hide in the speech?

3. Who noticed the hidden message?

4. How did the senator react?