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Short story

O processo das rosas

A retired judge in Porto Alegre keeps a diary to prove that his neighbor is poisoning his late wife's roses.

Tap a dotted word for its meaning.

Words to know (12)
  • o desembargador · appellate court judge
  • a roseira · rose bush
  • a haste · stem
  • enegrecer · to turn black
  • a térmica · thermos
  • o chimarrão · hot unsweetened mate tea, drunk from a gourd in the South
  • o acórdão · court ruling (by a panel of judges)
  • o esterco · manure
  • definhar · to wither, waste away
  • a borra de café · coffee grounds
  • flagrar · to catch in the act
  • a cuia · gourd for drinking chimarrão

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Porto Alegre, 4 de setembro. Começo hoje este diário por recomendação da minha filha, que acha que escrever me fará bem, e por precaução minha, que acho que um dia ele servirá de prova. Fui do Tribunal de Justiça por vinte e oito anos e sei que a memória é a mais frágil das testemunhas. Registro, pois: as do meu jardim, no Moinhos de Vento, estão morrendo. As folhas amarelam de baixo para cima, as os botões não abrem. Odete, que plantou cada uma delas, não está mais aqui para ver. Não está mais aqui para nada, aliás.

9 de setembro. Tenho uma suspeita. A vizinha da casa ao lado, Dona Lurdes Bittencourt, viúva também, sessenta e nove anos, debruça-se todos os dias sobre o muro com uma expressão que, em vinte e oito anos de tribunal, aprendi a reconhecer: a de quem sabe mais do que diz. Hoje me perguntou se eu tenho regado as rosas. Respondi que sim, evidentemente, toda manhã, com a água que sobra na do que é água boa, fervida, e que seria um desperdício jogar fora. Ela fez uma cara. Anoto a cara.

15 de setembro. A situação se agrava. Três perdidas. Dona Lurdes apareceu de novo no muro e disse, com a petulância de quem nunca foi contrariada por um “Aurélio, tu não entende nada de rosa. Quem cuidava era a Odete.” Respondi que eu tinha discernimento suficiente para julgar homicídios, de modo que haveria de entender de Ela respondeu que não é réu. Encerrei a audiência e entrei em casa. Noto que ela sabia o nome de Odete. Evidentemente sabia: foram vizinhas por quarenta anos. Mas o tom. O tom me pareceu de posse.

22 de setembro. Fiz uma inspeção noturna. Às duas da manhã, à luz da lanterna, encontrei pegadas pequenas no canteiro, número trinta e seis, no máximo. Sapato feminino. Encontrei também, junto à amarela, a preferida de Odete, a terra úmida e um cheiro que não identifiquei, algo entre o e o café. Recolhi uma amostra num pote de geleia. Rotulei: Prova A. Minha filha, ao telefone, perguntou se eu tenho dormido bem. Disse que sim. Não vem ao caso.

30 de setembro. A amarela se recuperou. Não há outra explicação senão a de que a envenenadora, percebendo que está sendo observada, recuou para não deixar vestígios. É tática conhecida; já vi réus mais astutos fazerem o mesmo. As do lado do muro, porém, continuam e são justamente as que eu rego com mais zelo, duas vezes por dia, com a água ainda quente, como Odete gostava do dela.

8 de outubro. Confrontei Dona Lurdes. Mostrei-lhe a Prova A. Ela abriu o pote, cheirou e disse que era composto de de café com casca de ovo, que ela mesma fazia, e que Odete usava a mesma receita, aprendida com ela, aliás. Perguntei, com a firmeza de quem conduz um interrogatório, o que fazia o composto dela no meu canteiro. Ela me olhou de um jeito que não anotei, porque não sei descrever, e disse apenas: “Para de regar com água quente, homem de Deus.” Depois foi embora. A defesa, como se vê, é confusa.

19 de outubro. Não consigo dormir. Às três da manhã, ouvi barulho no jardim. Desci com a lanterna e a Dona Lurdes, de robe e chinelos, ajoelhada junto às do muro, com um regador e um balde, falando baixinho com as plantas, ou com alguém, não sei. Não me viu. Fiquei atrás da janela da cozinha muito tempo, mais do que seria necessário para formar convicção. Ela falava num tom que eu conhecia, mas de outra voz. Não interrompi. Um bom juiz sabe quando a prova ainda não está completa.

2 de novembro. Dia de Finados. As estão todas floridas, até as do muro, que eu deixei de regar por puro cansaço. É evidente que ela desistiu. A justiça, às vezes, se faz pela simples persistência do julgador. Hoje, por educação, deixei sobre o muro uma de e duas Ela aceitou. Ficamos uma hora conversando, sem tocar no processo. Amanhã volto às investigações. Ou depois de amanhã. Anoto, para os autos, que ela sorri como quem perdoa uma coisa que não precisa ser dita, e que eu não sei bem o que é.

Comprehension check

0/4 answered

1. What does Aurélio water the roses with?

2. What turned out to be in "Prova A"?

3. What advice does Lurdes give him?

4. Why do the roses by the wall recover, though Aurélio doesn't see it?